O ator Ney Latorraca reservou a última sexta-feira para um encontro com universitários da PUC em Curitiba. Foram duas sessões sequenciais de bate-papo com a moçada - a primeira no câmpus de Curitiba e a segunda no de São José dos Pinhais. Antes de subir ao palco, ele planejava como seria a tarde: faria uma alocução inicial, seguida de perguntas e respostas. ''Só eu falar, não dá pé. Tem que ter participação''.
Latorraca encerrou o Festival de Cultura DCE PUC-PR que movimentou a comunidade estudantil durante a semana. O artista foi o cartaz máximo do evento que teve shows, exposições, palestras. Esta não é uma atividade comum em sua vida, mas já esteve em reuniões idênticas. ''No final eu é que saio ganhando. Com os jovens você se rejuvenesce, sua chama fica viva'', comentou à Folha2.
Na entrevista concedida antes da conversa com os universitários Ney mostrou-se incomodado com a falta de oportunidade sofrida pelos autores nacionais. Chegou a dizer que assim como tem a Lei Rouanet que incentiva as produções, também deveria surgir algo idêntico para os dramaturgos.
Isso porque produtores e artistas investem somente naquilo que têm certeza que vai dar certo, escolhendo textos de nomes famosos. Falta ousadia para livrar-se das fórmulas já testadas e apostar nos desconhecidos, trazendo à tona valores que continuam no limbo.
''A gente tem que apostar agora é na dramaturgia brasileira. Montar mais autores nacionais'', enfatizou. Ele observou que o ator sempre acha um jeito de se virar. Se não estiver no palco, ''faz cinema, comercial, dirige um curta-metragem. Os autores não, esses precisam ser montados. O texto só existe como teatro na hora em que é encenado''.
Latorraca é da opinião que as pessoas ''deveriam apostar na jovem dramaturgia''. Fala isso com a autoridade de quem montou um autor até então premiado mas não produzido. A peça: ''O Martelo'', de Renato Modesto. Foi seu penúltimo trabalho. No momento está com ''3 x Teatro'', que tem direção, cenário e figurino de Edi Botelho.
O ator garante que o Brasil ''está cheio de bons autores, só que não são montados''. Já os consagrados - e parte da moçada que acaba se sobressaindo como o próprio Modesto - vão sendo absorvidos pela televisão. Como o teatro não se dá conta em utilizá-los, a TV faz a parte dela. Entre os mais importantes ele cita Lauro Cesar Muniz e Maria Adelaide Amaral, por exemplo, que estão no núcleo de dramaturgia da TV Globo.
Sobre o monólogo ''3 x Teatro'', que estreou ano passado, reunindo textos de Tchecov (''Fumar Faz Mal à Saúde''), Pirandello (''O Homem com a Flor na Boca'') e Cocteau (''O Mentiroso''), Ney Latorraca diz que é ''um exercício''. ''Para mim nada é definitivo, é exercício de ator''.
Com 37 anos de carreira profissional, Ney Latorraca nunca havia trabalhado num espetáculo solo. ''Eu nunca tinha feito, então vamos ao caminho das pedras, levar em horário alternativo, cobrar R$ 5,00. E fazer três clássicos, que não tinha tido chance antes. No meu currículo tenho Nelson Rodrigues, Plínio Marcos, Bráulio Pedroso, Lauro César Muniz, Gerald Thomas, Otavio Frias...'' No palco, somente ele dando calor e vida aos personagens, cercado apenas por duas mesas e duas cadeiras. Nada mais.
Para 2002 já está acertado que ele volta a compartilhar o palco com outros atores em ''Capitanias Hereditárias'', peça que está sendo escrita por Miguel Falabella e será dirigida pelo próprio. Falabella, inclusive, já conseguiu patrocínio da Brasil Telecom para esse projeto.
Vem aí uma comédia, com três casais em cena. Não será daquelas comédias rasgadas ''de se jogar no chão, dar gargalhada'', antecipou Latorraca. ''É uma coisa mais para você sorrir - e refletir, que é a função da gente. Essa é a função do teatro''. Até o momento está pronto o primeiro ato, que agradou bastante o ator.
Ney Latorraca deu um recado para quem quiser seguir a carreira: procurem escolas teatrais, se aprofundem na questão, aprendam. Indicou em Curitiba o Ateliê de Criação Teatral, de Luiz Melo (''um ator super-sério, importante''), e criticou a onda dos modelos se arvorarem na dramaturgia: ''Agora inventaram essa merda de modelo-e-atriz. Virou moda. São pessoas descartáveis, já que têm a vida curta. É claro que tem que ter gente jovem no teatro, mas gente que estuda. Senão faz um trabalho e nunca mais aparece. Fazer sucesso é fácil, difícil é se manter''.

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