A trama de ''Harry Potter e a Câmara Secreta'' começa com Harry (Daniel Radcliffe, assumindo e incorporando de vez todas as características do personagem depois de alguma timidez na estréia) voltando a Hogwarts no imprevisível carro voador do pai de seu melhor amigo, Ron Weasley (Rupert Grint, mais um achado da direção de ''casting''). A volta à escola contraria os esforços de Dobby, um anárquico elfo doméstico que, além de roubar todas as cenas em que aparece, adverte Harry sobre os perigos que vai encontrar durante a nova temporada - o estranho e formidável Dobby é a maravilha computadorizada número um entre o rol de seres e coisas que povoam os lúgubres corredores e compartimentos secretos de Hogwarts. Ali, ao lado da cativante sabe-tudo Hermione (Emma Watson), os amigos investigam uma série de acontecimentos que ameaçam matar diversos estudantes e ainda liquidar o diretor Alvo Dumbledore (o recém-falecido Richard Harris, parecendo exausto e consumido pela doença, mas mantendo a qualidade neste seu derradeiro trabalho no cinema). Há, no entanto, ainda mais a investigar. Na partida de quadribol querem arrebentar a cabeça de Harry. Mensagens ameaçadoras escritas com sangue aparecem nas paredes de Hogwarts e alunos aparecem petrificados em vida. Quem teria reaberto a legendária Câmara Secreta nos subterrâneos do colégio, construída há mil anos pelo misterioso Salazar Slytherin? Seria Harry Potter o herdeiro de Slytherin? E todas aquelas aranhas gigantescas? Por que, de repente, o brutamontes e fiel escudeiro Hagrid pode estar envolvido no mistério? Como Dobby estaria ligado a tudo isso ?
Novamente assinando o roteiro, Steve Kloves trabalha o material de J.K. Rowling seguindo a principal diretriz da autora. Vale dizer, ela trabalha suas histórias como se fossem mistérios próprios de um Sherlock Holmes. Os personagens estão sempre buscando pistas que levam a novas pistas, enquanto o espectador não dispõe de informação suficiente para antecipar a resolução do caso. Pela mecânica do roteiro, simplesmente observar com atenção os movimentos de quem está se movimentando em cena é o suficiente para enriquecer a trama e incendiar o suspense. Já sobre o diretor Chris Columbus pesa um ônus complicador: enquanto a escritora está sempre modulando seu tom narrativo, oscilando entre as observações leves ou cômicas no dia a dia e o pesadelo em torno do mal absoluto pairando sobre Hogwarts, o realizador está sempre em vias de perder a medida entre a obviedade e a ênfase desnecessária. ''Harry Potter e a Câmara Secreta'' parece sempre modulado acima do que seria o desejado. Mesmo os momentos mais amenos parecem invadir a platéia, em vez de simplesmente chegar. Toda fala é altissonante, com quase nenhum silêncio para contrabançar a onipresente intensidade. Tal saturação seria até bem vinda, se explodisse num clímax assombroso, mas o final, pouco assustador, é indigno da malevolência do arquivilão Voldemort.
Este novo argumento traz à cena alguns personagens periféricos de primeira grandeza, como Lucius Malfoy (Jason Isaacs, permanente mau caráter no cinema), pai do abominável Draco, e o professor Gilderoy Lockhart, docente em magias contra as artes do mal. Pomposo, arrogante, auto-celebrado e afinal um blefe, Gilderoy é interpretado por Kenneth Branagh, com certeza em sua melhor forma em muitos anos, um primor em cabotinismo assumido somente com requintes de quem passou com maestria pelo fio da navalha shakespeareana. E por fim, um adeus ao grande Richard Harris. O momento mais memorável de ''Chamber os Secrets'' envolve a participação do ator como Albus Dumbledore, a última em uma carreira de mais de 80 filmes. Em participação revestida de emoção não planejada, talvez por escolha íntima e pessoal ou talvez por causa mesmo dos efeitos da doença que lhe consumiu, Harris emprestou a Dumbledore momentos de fragilizada mas efetiva gravidade. Com a voz naturalmente trêmula, ele fala sobre sua amada fênix, Fawkes, uma dessas criaturas que ''se transformam em chama quando é chegado o momento da morte''. Impossível imaginar melhor epitáfio para o ator.

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