"O Pequeno Tony" revela uma fatia dos institntos nada edificantes do ser humano
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quarta-feira, 20 de outubro de 1999
Por Luiz Zanin Oricchio 
São Paulo, 21 (AE) - Um exercício de humor negro. É pelo menos uma das maneiras de se interpretar este "O Pequeno Tony"
do holandês Alex van Warmerdam, que estréia amanhã (22). Não há como negar a afinidade desse filme com a estética da crueldade, hoje praticada como ninguém pelo mexicano Arturo Ripstein - basta lembrar, por exemplo, seu "Profundo Carmesi", lançado aqui como "Vermelho Sangue".
Na história de Warmerdam há, no início, um estranho casal que mora em uma fazenda. Brand (interpretado pelo próprio diretor) é o agricultor analfabeto, que vive sob a proteção da mulher, Kate (Annet Malherbe). Ela é quem comanda os negócios, vai à cidade, organiza a vida. Brand é analfabeto e Kate está cansada de ler para ele as legendas dos filmes a que assistem na TV. Arruma uma professora para o marido, Lena (Ariana Schluter). Como Lena é uma mulher interessante e Brand, apesar de analfabeto nada tem de bobo, o inevitável acontece. Até aí tudo normal.
O engraçado (dependendo do ponto de vista de quem olha) é que o romance parece ser incentivado por Kate. É que ela já passou da idade de ser mãe e deseja uma barriga de aluguel para um filho do marido. Apenas com esses ingredientes a história já teria tudo para ser boa. Mas Warmerdam acrescenta outros. Por exemplo, Kate arquiteta todo o plano, mas não tem domínio sobre seus sentimentos - e acaba tendo ciúmes. A relação a três, que deveria ser simplesmente instrumental e gerar um bebê, se reveste de traços perversos. É nesse contexto meio maluco que nasce o pequeno Tony, que dá título ao filme.
Tony circula entre os desejos cruzados dos três personagens. Brand não se incomoda de ser um garanhão e alvo de disputa de duas mulheres - logo ele que ocupara durante tanto tempo uma posição subalterna diante de Kate. A professora Lena, depois mãe de Tony, parece entrar de gaiata na história, mas pouco a pouco revela seu caráter manipulador. E a maquiavélica Kate finalmente é ultrapassada pelo plano que ela mesma engendrou. Nessa trama todo mundo perde, mas no meio desse jogo de cartas marcadas Warmerdam consegue expor uma boa fatia dos instintos básicos e nada edificantes do ser humano.


