O peixe da Páscoa
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 31 de março de 1999
Érika Pelegrino 
O bacalhau é um prato tradicionalmente preparado na Sexta-Feira Santa, quando, segundo costumes cristãos, não se come carne vermelha. Originário das águas límpidas e geladas da Noruega, mais precisamente dos mares do Norte, Glacial Ártico e do Oceano Atlântico, este peixe incorporou-se ao hábito brasileiro através dos imigrantes portugueses.
Estes, por sua vez, foram apresentados ao pescado no final do século XV. Durante as Grandes Navegações os portugueses necessitavam de um tipo de carne que não estragasse durante os longos meses de viagem; o bacalhau tinha as características ideais.
Até então, a Noruega, Islândia e Canadá eram os únicos países que tinham o privilégio de saborear este peixe. Livre do processo industrial de salgamento, o bacalhau é conhecido por preservar suas propriedades originais. Este peixe é tratado no local da pesca, por isso costuma-se dizer que é um produto concentrado, já que não perde vitaminas, proteínas e sais minerais.
Apesar do preço reajustado em dólar, um problema em época de crise, o bacalhau tem suas vantagens que continuam levando-o para a mesa do brasileiro, principalmente nesta época do ano. Uma destas vantagens, a principal, é o rendimento: um quilo equivale a três quilos de peixe fresco.
Ao contrário do que muitos pensam, trata-se de um alimento prático no preparo. Basta dessalgá-lo com antecedência e congelar para prepará-lo na hora de servir. Praticidade é outra vantagem deste peixe nórdico. São inúmeras as receitas, desde salada, sanduíches, pizzas até a tradicional bacalhoada.
Para os portugueses, mais que tudo este prato está na memória, nas lembranças. É o caso de Alzira que, no livro Cozinha dos Imigrantes, de Marina Heck e Rosa Belluzzo, dá uma receita do prato que povoa seu imaginário desde a infância. Já no Brasil, ela e a família conservaram, além do sotaque arrastado, hábitos típicos de Portugal, sempre ligados à culinária. O bacalhau com batatas faz parte das lembranças de Alzira.
Outras inúmeras receitas têm como base este pescado, que pode ser encontrado em quatro tipos: Cod, Saithe, Ling, Zarbo. As diferenças podem ser percebidas pela cauda. Cod, considerado o tradicional, tem cauda quase reta; Saithe, possui a cauda em V; Ling é mais estreito e claro; Zarbo não se encaixa em nenhuma destas características.
Outra fã do bacalhau é Nélida Pi¤on, presidente da Academia Brasileira de Letras. Em sua casa este peixe sempre esteve presente, desde a infância - o bacalhau ajustava-se, como nenhum outro alimento, à fantasia familiar. Da chegada dos portugueses aos dias atuais, o bacalhau se transformou em matéria-prima que faz parte do cardápio do brasileiro.


