O pedigree da literatura policial
PUBLICAÇÃO
sábado, 12 de maio de 2001
Marcos Losnak De Londrina Especial para a Folha2 
Crimes sempre existiram na literatura, mas a desenfreada sede em desvendá-los surgiu no século 19. Nessa época apareceram os detetives eruditos que, sentados em confortáveis poltronas e fumando cachimbos, conseguiam encontrar criminosos navegando em alto-mar. Desde então, a literatura policial tornou-se um dos gêneros mais populares do mundo.
Nas primeiras décadas do século 20, os detetives começaram a sair de seus confortáveis gabinetes e olhar a realidade com os próprios olhos. Lentamente passaram a andar às ruas das grandes cidades e percorrer escuros e sinistros becos. Um dos grandes responsáveis por esse novo enfoque foi o escritor norte-americano Samuel Dashiell Hammett (1894 - 1961). Praticamente foi ele quem fundou uma nova escola de literatura policial que influenciou todos os escritores posteriores.
Dashiell Hammett tinha conhecimento de causa. Depois de passar por dezenas de trabalhos temporários dos mais variados tipos, conseguiu uma vaga em uma agência particular de investigações. Permaneceu na empresa durante oito anos, chegando a exercer o cargo de detetive.
Aos 36 anos idade, em 1930, Hammett publicou um romance que passaria a figurar como um dos grandes clássico do gênero policial: O Falcão Maltês. Na narrativa, além de jogar o detetive durão Sam Spade em contato direto com suspeitos e criminosos, apresentou o nebuloso jogo entre investigações particulares e os interesses da polícia. O romance recebeu várias versões cinematográficas, mas foi em 1941, com a direção de John Huston que a história foi imortalizada. Com o título de Relíquia Macabra (no original The Maltese Falcon), contava com Humphrey Bogart no papel principal.
Dando início ao projeto de publicação das obras completas de Dashiell Hammett com novas traduções, a Companhia das Letras acaba de lançar O Falcão Maltês. O romance narra as investigações do detetive Sam Spade pelas ruas de San Francisco em um de seus casos. Uma sedutora mulher solicita que ele vigie sua irmã mais nova há a desconfiança de ela estaria sendo mantida como refém pelo amante. Aparentemente sem complexidade, o caso assume grandes dimensões.
O sócio de Spade é assassinado e, logo na sequência, o assassino aparece morto. Na realidade a sedutora mulher havia criado uma história irreal para encobrir a verdade. Aos poucos os fatos vêm à tona. Tudo gira em torno de um relíquia medieval de valor inestimável. Duas outras pessoas, além da mulher, querem ardentemente colocar as mãos no valioso objeto roubado no Oriente.
Na trama, Spade torna-se o investigador dos três interessados. Nesse jogo, todos sabem que ao final de tudo, dois deles deverão ser traídos. Num aparente mercenarismo, ele entregará a relíquia a estatueta de um falcão a quem pagar melhor. Esperto, o detetive coloca os três clientes em choque. E assim, aos poucos, vai esclarecendo os fatos e conhecendo em que território está pisando.
Em sua investigação, Spade entra em combate com os próprios clientes. Deles precisa arrancar a verdade sempre nebulosa e dissimulada. Ao mesmo tempo, também entra em combate com a polícia pois tem que manter o caso em segdredo para que alcance a meta esperada. Com seu alto poder de persuasão, consegue embromar a todos enquanto caminha para a solução do caso.
Como em todo bom romance policial, em O Falcão Maltês as coisas parecem ser de determinada maneira para, logo em seguida, se revelarem exatamente o contrário. A figura de Sam Spade vai sendo apresentada aos poucos, onde pode-se esperar qualquer tipo de atitude. Até mesmo o senso de justiça do personagem é dúbio e incerto. Da mesma maneira que a verdade dos fatos é escorregadia e nebulosa. A frieza de suas atitudes é justamente o que o coloca no caminho da verdade. Nesse sentido, o romance de Hammett é um prato cheio para os amantes do gênero policial.
O Falcão Maltês - De Dashiell Hammett, Editora Companhia das Letras, tradução de Rubens Figueiredo, 296 páginas, R$ 29,00.


