Paulo Polzonoff Jr.
De Curitiba
Especial para Folha2
O que leva um escritor a aceitar a encomenda de um livro, se não a compensação financeira que tal empreitada possa lhe oferecer? Talvez a possibilidade de fama imediata, mas e se o escritor em questão já gozar de prestígio nos meios literários? Mais: o que faz uma editora de grande porte, como a Objetiva, incluir entre os autores escolhidos para a produção da Coleção Plenos Pecados dois escritores estrangeiros, quando se sabe que nosso plantel é vasto e carente de divulgação?
Estas e outras perguntas foram se construindo, sem uma resposta a curto prazo, durante os seis episódios da coleção, que mostram, mais uma vez, a fragilidade deste tipo de recurso editorial quando o assunto é qualidade literária. Já em se tratando de números no livro de contabilidade, o sucesso é certo. A irregularidade é o que marca a coleção, da qual falta apenas mais um livro, sobre o pecado da soberba, escrito pelo argentino Tomás Eloy Martinez.
Dos seis livros que foram lançados até então salvam-se dois: ‘‘O Clube dos Anjos’’, de Luís Fernando Veríssimo e ‘‘Canoas e Marolas’’, de João Gilberto Noll. Os demais são livros bons, e tão-somente bons. Não passam de volume a mais na estante.
O que não chega a ser nenhuma surpresa, afinal, dos seis escritores em questão João Gilberto Noll e Luís Fernando Veríssimo eram os que tinham maior intimidade com a literatura. Sim, claro, há João Ubaldo Ribeiro, o imortal de sandálias, que acabou revelando-se um péssimo pornógrafo quando resolveu falar sobre o pecado da luxúria. João Ubaldo sem dúvida se concretiza como a maior decepção da coleção.
Quanto a Zuenir Ventura, José Roberto Torero e Ariel Dorfman, se não brilharam, também não erraram a ponto de serem considerados desastres. Fizeram, em suma, o que deles se esperava: uma prosa leve e ágil, feita especialmente para o leitor mediano, que não está interessado em experimentalismos nem em enredos que os levem à reflexão inquietante. A coleção Plenos Pecados, vale lembrar, é uma reedição inflada de um grande sucesso editorial da década de 70, o livro ‘‘Pecados Capitais’’, composto por sete contos de sete grandes escritores, entre eles Carlos Heitor Cony e Lygia Fagundes Telles, lançado pela editora Civilização Brasileira. Trata-se, pois, do velho clichê (e clichês são imperdoáveis em literatura de qualidade) do ‘‘nada se cria; tudo se copia’’.
Vários ‘‘clones’’ da coleção estão a caminho. A editora Record foi a primeira a perceber o sucesso da idéia com a Coleção Negra, com clássicos do romance policial americano, que começa a incorporar à sua lista de autores nomes da literatura brasileira, como Adir Blanc e Rubens Figueiredo. A Companhia das Letras não fica atrás. Em parceria com a editora inglesa Bloomsbury, já programou uma série na qual os autores tratam cada qual de uma cidade. Alguns nomes já estão definidos. Rubem Fonseca vai escrever sobre o Rio de Janeiro, Tomás Eloy Martinez sobre Buenos Aires e Paul Auster sobre Nova York. A mesma editora publicará a coleção Virando os Séculos, na qual historiadores dissertarão a respeito das passagens de um século para o outro, do século XV ao XXI.

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