Curitiba - Qualquer semelhança com a realidade terá sido mera coincidência. O espetáculo ''Como eu Aprendi Dirigir um Carro'', que estréia hoje em Curitiba, tem como tema central a pedofilia, um sutil amor entre um tio e uma sobrinha. O espetáculo é levado ao palco numa época em que o tema está sendo amplamente discutido na mídia, com casos sendo divulgados cotidianamente. A semelhança, porém, é descartada porque o texto não foi escolhido ontem. É uma idéia antiga do diretor carioca Felipe Hirsch que passou a maior parte de seus 30 anos em Curitiba.
O texto é da dramaturga Paula Vogel, reconhecida como uma das mais importantes autoras da literatura ocidental contemporânea nos últimos anos. Paula já ganhou o Prêmio Pulitzer, o Obie, Drama Desk entre outras premiações concedidas à literatura dramática americana. Até então seus textos eram inéditos no Brasil.
Entre as inúmeras qualidades do diretor, está justamente essa: a de descobrir bons, promissores e (quase sempre inéditos) textos. Foi assim quando Hirsch montou ''A Vida é Cheia de Som e Fúria'', espetáculo baseado no livro ''Alta Fidelidade'' de Nick Hornby. A peça, montada com a Sutil Companhia de Teatro, sem dúvida foi a responsável pela decolagem do jovem diretor.
Depois da estréia de ''A Vida é Cheia...'' no eixo Rio-São Paulo, nove entre dez estrelas e aspirantes a um teatro de qualidade procuraram o diretor, que se mudou para o Rio, buscando uma brecha para integrar seus projetos. Andréa Beltrão, Marco Nanini, Renata Sorah, Eliane Giardini estão entre os atores que foram dirigidos por Hirsch depois que a boa fase começou.
Mas o fato é que o espetáculo que é visto como pioneiro na brilhante carreira do diretor já podia ser chamado de resultado do que ele se propõe a fazer desde os 13 anos de idade. Isso mesmo, com apenas 13 anos, ainda em Curitiba, Hirsch montou ''Esperando Godot'', um espetáculo até então proibido para menores de 16 anos.
Mais tarde (mas não muito, aos 19 anos) ele montou a Sutil Companhia com o curitibano Guilherme Weber e estreou ''Ball Babilônia'', no Teatro Paiol. A peça sem dúvida faz parte da história dos bons espetáculos montados em Curitiba. Hirsch sempre teve sensibilidade para escolher textos interessantes. Mas como nem só de bons textos sobrevivem as boas montagens, é preciso ressaltar o mérito do diretor enquanto profissional. Ele foi o primeiro (em Curitiba, pelo menos) a aliar técnicas do cinema com o teatro e fazer disso uma boa parceria.
Primoroso, extremamente perfeccionista e atento a todos os detalhes que formam os seus espetáculo ele já trocou, por exemplo, seis vezes o texto da montagem atual. Tem ensaiado tanto com o elenco curitibano que nunca retornou os recados da reportagem da Folha para falar sobre ''Como eu Aprendi a Dirigir um Carro''. As constantes trocas de textos, assim como a troca de figurino às vésperas da estréia foram apuradas pela reportagem.
A justificativa da produção para tantas mudanças é que a apresentação de hoje é apenas um ensaio aberto. A estréia nacional do espetáculo acontece apenas no próximo dia 24. Até lá, o espetáculo ainda pode sofre alteração.
A peça aborda a história de Tio Peck e sua relação com sua sobrinha. A história é contada a partir da perspectiva de uma mulher, uma narradora lírica e ambivalente de suas próprias memórias. Ao armar a primeira cena, ela evoca com certo ar de satisfação uma noite de 1969, numa cidade próxima a Baltimore, quando ela tinha 17 anos.
Um casal, a narradora e um homem, estão sentados num carro, negociando sobre até onde ir sexualmente em seu encontro. Mas uma informação causa desconforto. O homem é trinta anos mais velho do que ela e é casado com a irmã de sua mãe.
Ele é seu Tio Peck, faz parte de sua família claustrofóbicamente unida e esses encontros vêm acontecendo há algum tempo. Essa relação foi iniciada quando Tio Peck resolveu ensinar a sobrinha a dirigir, explica Paula Vogel na peça, mas a narrativa salta no tempo, para trás, até a infância da personagem, e para frente, até a sua vida adulta emocionalmente paralisada.
No elenco do espetáculo estão Christiane de Macedo, Zeca Cenovicz, Edson Rocha, Marísia Brunning, Maurício Vogue e Mônica Placha. A iluminação é de Beto Bruel e a assistência de criação é de Guilherme Weber.
Serviço: ''Como eu aprendi a dirigir um carro'', de 19 a 04 de agosto. De quarta a sábado às 21 horas e domingos às 20 horas no Teatro do HSBC (Rua Luiz Xavier 11 - Rua das Flores). Ingressos a R$ 15,00 e R$ 7,00 meia. Clientes do HSBC têm 25% de desconto.

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