O pecado gelado do verão
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 28 de janeiro de 1997
Telma Elorza 
Arquivo FolhaPara dar um refresco no calor, o sorvete é o alimento número 1. E quem resiste a essa tentação?
Basta os termômetros começarem a registrar alguns graus a mais na temperatura ambiente para começar o fenômeno que se repete a cada ano: as sorveterias viram passeios obrigatórios para as famílias, namorados ou simplesmente para aqueles que querem dar um refresco no calor. Iguaria que agrada a todos os paladares, o sorvete - seja de um simples picolé de frutas a uma sofisticada torta gelada - vira mania no verão.
Desde que algum abençoado chinês - lá pelos idos do remotíssimo século 3 antes de Cristo - decidiu misturar um pouco de neve ao seu suco de frutas, o sorvete conseguiu o que muitos conquistadores tentaram e falharam: dominar o mundo. Seja na gelada Sibéria (olha o paradoxo: o sorvete pode e deve ser consumido também no frio já que, dependendo dos ingredientes utilizados, é uma ótima fonte de calorias e, portanto, altamente eficaz para combater o frio) ou no mais tropical dos países, o sorvete faz sucesso. A novidade só chegou ao Brasil há cerca de 200 anos (nós não temos neve, eis a razão do atraso), pelas mãos dos americanos.
Por muitos séculos, a produção do sorvete permaneceu praticamente inalterada, composta só de gelo e suco de frutas, adoçado com um pouco de mel. Esta receita simples podia ser feita em casa. Até que, no século 18, o espertíssimo italiano Procópio Dei Cotelli, o Pai da Sorveteria, teve a brilhante idéia de acrescentar alguns ingredientes diferentes para comercializar o produto. Foi aí que surgiu sorvete preparado à base de leite. A industrialização mesmo só teve início por volta de 1850. Cerca de 70 anos depois, o governo americano reconheceu o sorvete como alimento.
Na América do Sul,
os argentinos
são os maiores
consumidores
Pouco consumo Hoje, os maiores consumidores de sorvete são os Estados Unidos, onde são consumidos, em média, 22 litros por pessoa ao ano. Em segundo lugar estão os europeus, que consomem 14 litros; na América do Sul, os argentinos são os maiores consumidores do produto: 7 litros por pessoa/ano. Os brasileiros só consomem 2,5 litros por pessoa anualmente, cerca 20 vezes menos do que os americanos, mesmo com a infinidade de sorveterias espalhadas pelo País (só na lista telefônica de Londrina estão listadas 27 sorveterias, sem contar com as que não tem telefone e as padarias, lanchonetes e restaurantes que também comercializam o produto). A média baixa pode ser explicada pelo fato de que, aqui, o produto só é consumido para valer no auge do verão.
Apesar disto, ele é imbatível entre todos os modismos que chegam a cada verão. Reina absoluto entre biquínis, danças sensuais, esportes radicais, sol e mar. E o melhor, é que, pelo menos nesta época do ano, deixa de ser encarado como uma simples sobremesa e vira uma festa para adultos e, principalmente, crianças. Para ser degustado a qualquer hora do dia ou da noite. Puro, misturado com licores, com frutas in natura, com caldas variadas quentes e frias, com refrigerantes (quem não conhece as famosas vacas pretass?), batido com leite, com castanhas, enfim, o que a imaginação mandar... O sorvete combina com tudo. Tá explicado a razão do seu sucesso.
Por ser muito
calórico, sorvete
serve até para
combater o frio
Sonho da taça Não há quem resista a enormes taças ou simples picolés quando o sol torra lá fora e a temperatura beira aos 40 graus. Com a febre dos self-services ou bufês de sorvetes, que invadiram as cidades brasileiras nos três últimos anos, o negócio prosperou. Afinal, quem não sonha em preparar a sua própria taça, com milhões de bolas de sorvete dos mais diversos sabores, cobertos com quilos de caldas, acrescidas de toneladas de marshamellows e chantillys, milhares de pedaços de frutas e, para completar, bilhões de pedaços de chocolate e castanhas? Humm...
Os bufês realizaram muitos sonhos de infância e desafiaram as dietas mais rígidas. Distribuídos em latões, as dezenas de sabores desfilam tentadores aos olhos dos consumidores e lançam um desafio de força de vontade: atravessar todo o balcão sem abusar da infinidade de coberturas quentes, frias e secas. O self-service de sorvete deixa a criatividade e a gula, literalmente, nas mãos do consumidor.
Este, se não for um experiente sorvetemaníaco, pode cair na tentação de querer provar um pouco de tudo e acabar tendo em mãos, além de uma taça monstruosamente grande, um verdadeiro terror ao paladar. Isto mesmo, sorvete também pode se tornar desagradável. Mesmo com a afirmação verdadeira de que combina com tudo, isto não significa tudo ao mesmo tempo.
Quem já fez esta experiência, que o diga. Misturar um monte de coisas doces com o sorvete, além de esconder seu sabor, vai torná-lo intragável de tão enjoativo. E o que era para ser uma experiência prazerosa, pode ficar marcado na lembrança com arrepios de pavor. Com já dizia o velho ditado, o que é demais faz mal. Bom senso também vale para a hora do prazer.


