A cada coreografia de um espetáculo, um novo capítulo é escrito na história do Ballet de Londrina, companhia profissional de balé que completará 25 anos de existência e atividades ininterruptas a serem comemoradas um dia antes do aniversário de 84 anos da cidade, no dia 9 de dezembro. Neste enredo protagonizado pelas pontas de pés - principalmente "vermelhos" - firma-se um quarto de século dedicado à dança, à arte, à resistência e, sobretudo, à transformação social calcada pelas dezenas de personagens que passaram pela companhia, muitos oriundos de escolas tradicionais da cidade e, mais recentemente, da própria Escola Municipal de Dança. Ambos estão sediados na Funcart (Fundação Cultura Artística de Londrina), que também comemora as Bodas de Prata de atividades na cidade.

'Oração Pelo Fim do Mundo' (2107): montagem mais recente do Ballet de Londrina mostra o nível técnico alcançado pela companhia reconhecida em nível nacional
'Oração Pelo Fim do Mundo' (2107): montagem mais recente do Ballet de Londrina mostra o nível técnico alcançado pela companhia reconhecida em nível nacional | Foto: Fábio Alcover/ Divulgação




Um desses personagens, sem dúvidas, é peça fundamental para a formação da identidade e singularidade do grupo: Leonardo Ramos, diretor geral e coreógrafo pernambucano radicado em Londrina desde o início da década de 80. Difícil, portanto, desvincular sua imagem à do Ballet e que, juntos, ganharam maturidade e se transformaram durantes essas décadas. "Nunca fiz nada sozinho. Muitas pessoas são responsáveis pelo que foi criado e realizado até aqui. Hoje, mais que uma companhia, existe uma filosofia de trabalho que vai continuar independentemente de mim", comenta, lembrando vários nomes de pessoas que estiveram ao seu lado, incluindo seu braço direito, o bailarino e professor Marciano Boletti, que está na companhia até hoje e realizou, em julho, seu primeiro trabalho como coreógrafo na companhia.

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Como parte das comemorações da companhia, Ramos adianta que está prevista uma série de atividades a partir de dezembro, que vão de apresentações tradicionais de montagens da companhia a performances pontuais em espaços públicos. A programação oficial dever ser anunciada em breve pela direção. Por enquanto, o que se sabe é que os integrantes se preparam numa rotina diária intensa para uma possível estreia e outras três montagens já conhecidas e aplaudidas pelo público londrinense: "Sem Eira Nem Beira (2015)", "Oração Pelo Fim do Mundo (2017)" e "Dama das Camélias (2018)", última montagem apresentada durante o 38º FIML (Festival Internacional de Música de Londrina). São espetáculos com temáticas distintas, porém, conectados pela inovação e inventividade dos movimentos, características inconfundíveis da companhia.


Primeiro elenco do Ballet de Londrina (1993) , com Leonardo Ramos (à esquerda) e Marcos Leão (à direita): trajetória que chega aos 25 anos
Primeiro elenco do Ballet de Londrina (1993) , com Leonardo Ramos (à esquerda) e Marcos Leão (à direita): trajetória que chega aos 25 anos | Foto: Divulgação



ESTREIA
Desde a primeira formação, em 1993, então sob o título "Balé de Câmara da Cidade de Londrina", estiveram em seu corpo bailarinos e profissionais da dança que acreditavam nos movimentos como arte. Contudo, se o momento desbravador era efusivo, logo na estreia, já tiveram de saber lidar com um baque, a morte do coreógrafo Jorge Marcos de Oliveira, o Marcos Leão (como era conhecido), apenas nove dias antes da apresentação inaugural. Apesar do luto, o espetáculo foi mantido e os nove integrantes marcaram a história da cidade ao apresentar o "Uma Bachiana", de linguagem neoclássica, e "Um Ex, um Vazio, um Dentro, um Transbordado", coreografia em quatro partes com um flerte de linguagem contemporânea. A apresentação foi realizada ao som da Osuel (Orquestra Sinfônica da Universidade Estadual de Londrina).

O passo a passo da construção de um ballet
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Apesar da estreia emociante - em todos os sentidos - Ramos tinha, então, um grande desafio pela frente. "Nunca havia pensado em ser coreógrafo, sempre fui educador. Mas diante da heterogeneidade do grupo, seja de perfil ou físico, tivemos dificuldades em encontrar alguém que soubesse lidar com isso. Foi quando assumi a responsabilidade de tocar o projeto." Houve, ali, um mergulho em si mesmo e o primeiro espetáculo sob sua criação foi "Nó" (1994), que tinha uma linha mais clássica. "Foi uma montagem extremamente ingênua na concepção dos movimentos, mas que representava, de certa forma, o desatar de nós em que eu estava", conta ele, relembrando que usou, como inspiração de cenário, um colcha de retalhos em referência à cultura popular brasileira, fonte de inspiração até hoje para o diretor.



E assim seguiu até meados dos anos 2000, quando realizou uma montagem em trilogia em que a linha clássica vai recuando: "Nunca" (2001); "Eternamente" (2002); e "Fome" (2003). "Eu não faço o que só sei fazer e vou sempre me dar o direito de errar", diz, lembrando que, na sequência, precisou se distanciar das atividades para se recompor emocionalmente. A volta tímida, apenas um ano depois, resultou em outros projetos que ele considera intermediários. Chega então, um divisor de águas no trabalho desenvolvido. A montagem "Decalque" (2007), que veio como um furacão, invertendo a lógica da dança e despertando um fascínio do público por seu ineditismo de movimentos na horizontal. "O corpo do bailarino não apenas é uma tinta, mas parte da criação. Este foi um 'Romeu e Julieta' que passava pelos corpos de todos os bailarinos, numa espécie de transferência, de decalque da dramaturgia", comenta o diretor.

Leonardo Ramos, diretor geral do Ballet de Londrina, no canteiro de obras do futuro Teatro Funcart: trajetória que se mistura à vida cultural da cidade
Leonardo Ramos, diretor geral do Ballet de Londrina, no canteiro de obras do futuro Teatro Funcart: trajetória que se mistura à vida cultural da cidade | Foto: Anderson Coelho



Não tinha mais volta, o Ballet de Londrina ganhava o Brasil e o mundo com sua marca contemporânea que foi replicada e reinventada nos espetáculos seguintes, como o inebriante "A Sagração da Primavera" (2012) e o envolvente "Sem Eira Nem Beira", (2014), estreado nas construções do Teatro Municipal de Londrina. Desde então, a companhia, hoje com treze integrantes, também começou a incorporar com mais veemência, jovens bailarinos formados pela Escola Municipal de Dança e os primeiros integrantes passaram a dar continuidade no trabalho de uma linguagem que Ramos salienta "ainda estar sempre em construção". "Meu maior desejo é que, quando eu me aposentar, eu não faça falta. E sei que não vou fazer, pois há, aqui, uma base sólida de trabalho de pessoas de qualidade. O desafio vai ser sempre conseguir uma renovação da linguagem. Isso, sim, eu espero que aconteça."

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