Nelson Capucho
Caminha em busca de quê o homem magro, quase anônimo, no Passeio Público? Ninguém faz soar sirenes. Ninguém badala sinos. Se soubessem do perigo chamariam a polícia, os bombeiros, o padre exorcista, os críticos literários. O estranho segue impune, passos miúdos, olhos sanguíneos atrás das lentes. Observa um João aqui, uma Maria ali. Pára de repente, ouve um fiapo da conversa das mulheres rechonchudas: ‘‘Eu gostava dele. Depois desse bendito sábado, quero distância’’. É só um homenzinho, alma encharcada de história e casos noturnos, coitado. Vampiro em pele de cordeiro, isso sim!
Perambula ao redor do lago. O caçador não sabe que também é caça. Odeia fotografias, foge de jornalistas com suas réstias de alho, estacas de madeira e martelos, seus gravadores indiscretos, cadernetas, perguntas ingênuas. ‘‘Com falsa modéstia, não quer o retrato no jornal - e o jornal sempre a publicá-lo’’.
Escondeu-se atrás de um arbusto. Escafedeu-se? Virou morcego, o demônio?
Nada. Rejuvenesceu 40 anos, chama-se Nelsinho, Serginho, algo assim. Galã de bigodinho e canino de ouro. Um punhado de balas Zequinha no bolso. Está de olho na polaquinha, o canalha. Sonha com o bordel das normalistas, o depravado. É ele, sim. Não é possível. ‘‘Aos cães vagabundos que rondam o bar, oferece bolinho de carne com vidro moído.’’
A friagem, os odores, os uivos dos pedalinhos. A atmosfera do Passeio Público revigora o vampiro. Antes, ah, bem antes...o Marrocos, o Amarelinho, os bailes no 14 de Janeiro, um certo Sobradinho, uma outra Rua 15, o Café Avenida com sua garçonete banguela, o Bar Palácio...Agora nem as broinhas de fubá mimoso são as mesmas. ‘‘Passa uma freirinha de óculos, toda de preto, corneta branca e - oh, não - um jornal de título vermelho dobrado no braço: O vampiro ataca no convento.’’
Novamente o homenzinho, soturno. Fotografa, fotografa o danado!
Em busca de quê caminha o homem magro no Passeio Público? De novos personagens, dramas banais, matéria-prima? Anda atrás da amante loira, misteriosa, uma Curitiba perdida que os anos não trazem mais? Ou quer sossego, apenas um pouco do sossego bovino que Deus deve permitir de vez em quando até mesmo aos vampiros?

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