A memória pode ser comparada às unhas dos dedos. Todos cortam-nas regularmente e mesmo assim elas sempre estão lá, no mesmo lugar, crescendo e crescendo. Para resolver o problema seria necessário cortar os dedos. Mesmo assim, toda vez que alguém olhasse para as mãos sem dedos, se lembraria imediatamente deles. Lembrando dos dedos, também se lembraria das unhas.
A memória é um fantasma que, como as unhas, não pode ser exilado, não pode ser colocado para fora da vida. Simplesmente o passado nunca deixa de existir, principalmente na mente do homem. O último romance do escritor japonês Kazuo Ishiguro, ‘‘Quando Éramos Órfãos’’, procura revelar os caminhos que os fantasmas da memória desenham na vida de um homem. O passado individual como o grande responsável pelas marcas e feridas da existência.
Lançado pela Companhia das Letras, ‘‘Quando Éramos Órfãos’’ conta a história de Christopher Banks, um menino filho de ingleses nascido em Xangai no início do século 20. Aos nove anos de idade assiste ao desaparecimento dos pais, numa suspeita de sequestro. O pai trabalhava num empresa responsável pelo comércio de ópio na China.
Dado como órfão, o menino é enviado para Inglaterra para ser criado por uma tia. O tempo passa e Banks, dedicado aos estudos, torna-se um dos mais famosos detetives do país. Sempre frequentando as altas rodas da aristocracia inglesa, goza de boa reputação e leva uma vida de riquezas.
Mas algo incomoda Banks constantemente: o fantasma do passado, as lembranças da infância no período em que residia em Xangai – sua relação com o amigo e vizinho, Akira, e com sua mãe e seu pai. Com o passar dos anos resolve finalmente usar suas qualidade de detetive para descobrir o paradeiro dos pais. Para tornar as coisas mais complicadas, embarca para Xangai justamente no momento em que estoura a guerra entre China e Japão.
Em ‘‘Quando Éramos Órfãos’’, a narrativa de Kazuo Ishiguro não caminha para a concentração da memória, mas para a sua dispersão. O real encontro do personagem Banks com o passado, seu acerto de contas com o fantasma do passado, é adiado e dilatado de maneira intencional. O objetivo parece ser o de levar o leitor ao limite de sua paciência para revelar, no final, um oásis surpreendente – a ponta do novelo.
Dilatando a memória de Banks, o escritor revela que o passado é uma espécie de prisão que tudo determina. Como toda prisão é um oceano de monotonia onde quase nada acontece, ‘‘Quando Éramos Órfãos’’ realiza esse mesmo trajeto de maneira consciente. A narrativa de Ishiguro pode espantar alguns leitores, mas aqueles que cruzarem o romance como um todo, terão acesso a uma maior compreensão da estrutura e do conteúdo da obra.
Nascido no Japão em 1954, Kazuo Ishiguro é autor de romances admirados tanto pela crítica quanto pelo público: ‘‘Uma Rápida Visão dos Montes’’ (1982), ‘‘Um Artista do Mundo Flutuante’’ (1986), ‘‘Os Vestígios do Dia’’ (1989) que foi transformado em filme e ‘‘O Desconsolado’’ (1995). Embora tenha nascido no Japão, o escritor vive na Inglaterra desde os cinco anos de idade. Isso faz com que sua literatura tenha maior característica inglesa do que japonesa propriamente dita.
O novo romance de Ishiguro vem lembrar, mais uma vez, que o homem sempre será refém de sua própria memória, de seu próprio passado. E a vida uma prisão onde cada um espera pelo fim da pena, sempre ludibriado pela ilusão. (M.L.)
• ‘‘Quando Éramos Órfãos’’, de Kazuo Ishiguro, Editora Companhia das Letras (telefone 11/3846-0801), tradução de José Marcos Macedo, 396 páginas, R$ 34,00.

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