A poesia é um país não muito distante onde os sentimentos andam de bicicleta em manhãs de sol. Onde sensações pisam em poças de água após a chuva. Onde o crepúsculo sopra areia nos olhos dos habitantes. Onde a emoção faz coleção de pedrinhas de asfalto na memória.
A poesia de Miriam Paglia Costa, em seu novo livro ‘‘Notícias do Lugar Comum’’, trafega neste país não muito distante recolhendo fragmentos do cotidiano para tecer uma rede de impressões emocionais. Em tom confessional, realiza crônicas poéticas de suas sensações, sejam elas da metrópole do presente ou da pequena cidade no interior do passado.
Mirian Paglia Costa procura lirismo nas situações mais cotidianas, no vaivém de uma grande cidade, na janela de um edifício, numa lanchonete de rodoviária, na cozinha do apartamento, na notícia de jornal, nos discursos de palanque, nos mendigos dormindo em caixas de papelão, na manicure da vila, no ônibus lotado, na festa de santo, nas sirenes do corpo de bombeiros, nos trombadinhas correndo como gazelas, etc, etc. Situações urbanas que passam pelo dia-a-dia atropelando com violência ou envolvendo com certo carinho.
A memória é um novelo que Mirian Paglia Costa desenrola calmamente. Este novelo é Londrina, cidade onde nasceu e viveu até 1974, quando se transferiu para São Paulo: ‘‘é fácil amar uma cidade/principalmente de longe/quando ela te devolve a bola da memória’’. Suas lembranças deslizam pela catedral em construção, pelo ponto de charrete, pelo cafezal sem prédios, pelo rádio cantando durante todo o dia, pelo cheiro de bolo de fubá, pela loja de armarinhos, pela primeira piscina da cidade e até mesmo pelos pardais ciscando bosta de cavalo nas ruas de paralelepípedo. Ou o agudo rangir de um velho portão de ferro. Detalhes que só a memória pessoal é capaz de conferir valor emocional.
Transitando entre a cidade de São Paulo e a de Londrina,‘‘Notícias do Lugar Comum’’, lançado pela Editora 34, mergulha na simplicidade poética sobre sólidos alicerces onde só os sentimentos íntimos servem de parâmetros. Como a sinceridade nos olhos de cada um.

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