O passado à flor da terra
PUBLICAÇÃO
domingo, 16 de fevereiro de 1997
Fernando Bonassi Agência Estado 
Arquivo FolhaA Catedral Metropolitana, no ZócaloLá pelo ano 1300 da era cristã, andavam os Méxicas à procura de um lugar pra se fixar quando o deus da guerra, Huitzilopochtli, aparece ao grande sacerdote para dizer que o lugar certo era onde encontrassem uma águia empoleirada num nepal (um cacto), tendo nas garras e no bico uma serpente. Foram achar o lugar num vale que tem como portal os vulcões Popocatépetle e Ixtacyhuatl, numa ilha no meio do Lago Texcoco!
Os deuses talvez estivessem loucos, mas foi aí que surgiram as primeiras cabanas, e o povoado recebeu o nome Tenochtitlán. Em pouco tempo começou a faltar espaço, e a solução encontrada foram as chinampas, espécie de jangadas que eram amarradas à ilha.
O tempo, depositando sedimentos no fundo do lago, terminou por ligar as chinampas uma às outras e a transformá-las em ilhas. Hoje são aproximadamente 20 milhões de habitantes a flutuar nessa plataforma, com o peso de sua frota de mais de 3 milhões de veículos, casas e arranha-céus.
Na Cidade do México, a história está por todos os lados e especialmente embaixo da terra. Aqui não se escava nada sem o risco de topar com um sítio arqueológico.
Foi o que aconteceu, por exemplo, em 1978, quando a companhia de eletricidade fazia reparos na Plaza de La Constituición (o Zócalo) e deu de cara com o Templo Maior, uma enorme pirâmide cheia de objetos rituais e cotidianos dos astecas. Ao seu lado hoje funciona o Museu do Templo Maior, com os utensílios localizados, a crônica da descoberta e a sala da destruição de Tenochtitlán, onde você vai ter uma noção da violência da conquista.
O Zócalo concentra uma série de edificações importantes, como o Palacio del Ayuntamiento, a Catedral Metropolitana e o Palácio Nacional, onde costumavam ficar os presidentes antes de se mudarem para Los Pi¤os.
Monumento asteca nos arredores da capital mexicana
No Palácio Nacional, aliás, está outro dos mais famosos murais mexicanos. É a Epopéia do Povo Mexicano em sua Luta pela Liberdade e Independência, de Diego Rivera. São mais de 400 metros quadrados pintados ao longo de 16 anos, narrando a história do povo mexicano com especial destaque para o cotidiano dos índios antes da chegada do conquistador espanhol e para o trecho dedicado aos eventos do século 20, em que a elite mexicana é retratada fazendo festa enquanto o povo rala de trabalhar. Qualquer semelhança será mera coincidência?
Paseo de La Reforma Um passeio pela cidade obrigatoriamente passará pelo Paseo de La Reforma, grande avenida construída pelo imperador Maximiliano em 1865, ligando o Palácio Nacional à sua residencia oficial, no Parque de Chapultepec. O Parque, aliás, que é outro lugar de destaque. Trata-se de uma área verde que faz qualquer Ibirapuera morrer de inveja, especialmente porque contém diversos museus, como o Museu Nacional de Antropologia, milhares de metros quadrados destinados aos achados arqueológicos das culturas pré-hispânicas e às características dos vários grupamentos indígenas da nação mexicana atual.
A Cidade Universitária, construída entre 1950 e 1955, representa uma ousada viagem arquitetônica, com mosaico de Juan OGorman. Poucos edifícios, aliás, não dispõem de murais ou de qualquer outra marca a conferir sua especificidade.
Saindo da Cidade Universitária e voltando para o centro da cidade, os bairros de Coyoacán e San Angel são paradas obrigatórias. De preferência, devem ser visitados a pé. Suas ruas largas, tranquilas e arborizadas fizeram com que aqui fixassem residência os mais importantes intelectuais e artistas mexicanos dos anos 40 e 50.
Frida e Trotski Fica em Coyoacán, por exemplo, a Casa Azul, atual Museu Frida Kahlo, onde a pintora nasceu, viveu com seu marido Diego Rivera e morreu em 1954. A Casa Azul não tem as principais obras de Frida, mas algo melhor: o seu mundo de detalhes reveladores. Suas roupas, colares, diários e objetos de casa.
Também em Coyoacán está o Museu Casa de Trotski, lugar onde o líder bolchevique viveu seus últimos dias, antes de ser assasinado. Antes de se mudar para lá, Trotski viveu por dois anos na Casa Azul e sabe-se que teve um caso com Frida Kahlo. Pensar esse acontecimento à luz dessas casas dá a marca de vitalidade e tragédia que deve ter sido a história.
Estes são apenas alguns dos programas possíveis na Cidade do México. São centenas de atrações culturais que vão de igrejas centenárias a museus de arte moderna, de praças quilométricas a varandas delicadas, de gigantescos bulevares a alamedas arborizadas... Tudo com as cores fortes de um país com o qual todos temos muito o que aprender.
Se no México você ficar paralisado pela impressão de que não vai ser possível conhecer tudo o que você gostaria, normal. Você não vai conseguir mesmo... Trata-se de um lugar para voltar muitas vezes... Em muitas vidas!


