Cineasta japonês, morto no domingo, conseguiu triunfos
de beleza que ultrapassam os limites do entretenimento

Paulo Briguet

Quem sabe não é possível sair do trabalho hoje e buscar nas locadoras um filme de Akira Kurosawa chamado Viver? Não é um daqueles filmes mais destacados nas prateleiras, que têm várias cópias, de acordo com a demanda popular - longe disso. Não se trata de um produção alardeada pelos cartazes promocionais. É um filme velho, realizado em preto-e-branco, sem atrativos de mercado, geralmente perdido entre a seção de produções clássicas ou orientais. Para os filmes do diretor japonês, um dos poucos mestres incontestáveis do cinema em todos os tempos, haveria uma só prateleira justa: a das obras universais. Com a morte de Kurosawa, chega ao fim uma das últimas essências artísticas do século XX. Na grande tela, ele conseguiu triunfos da beleza que ultrapassam os limites do entretenimento.
Viver (1952) conta simples história. No Japão pós-guerra, um funcionário público, vazio de espírito, burocrata sem maiores preocupações pelo semelhante, automatizado pela rotina trabalho-casa, vai ao médico e descobre que está com câncer de estômago. Tem poucos meses de vida. A partir dessa implacável constatação, o funcionário decide mudar. Ele se esforçará para criar algo sólido e importante, que dê um pouco de sentido, ainda que póstumo, à sua existência absurda e ridícula; algo que marque a passagem do funcionário pela face da Terra. Para tanto, o protagonista tem uma idéia: lutar pela construção de um parque infantil. Uma pracinha em as crianças poderão se divertir e, quem sabe, lembrá-lo no futuro.
Temos aí todos os elementos para um filme piegas e tolo. Mas nunca nas mãos de Akira Kurosawa. Viver é um filme que, sem dúvida, provoca emoções e nós na garganta; contudo, o diretor japonês não era homem de recorrer a fórmulas fáceis de melodrama. Ele opta pela simplicidade, vai à definição da pessoa comum, mostra o cidadão que percorre letargicamente as calçadas conhecidas, acompanha o desesperado que se refugia nos bordéis, registra o silêncio total de uma caminhada sem objetivo (no vácuo, assim como na agonia do espírito, o som não se propaga). A singeleza vence o clichê. Sobra espaço até para o surpreendente, quando Kurosawa nos brinda com uma dose de humor impiedoso, satirizando políticos que tentam faturar em cima do parque infantil. Em todos os aspectos, e sobretudo nesta época de marketing avassalador, burocracia, fogos de artifício, santinhos, joões-bobos e crianças abandonadas, eis um filme que não envelheceu. Lembro-me sempre do parque de Kurosawa, quando vejo os desolados brinquedos de um parque bem aqui no centro da cidade, para cujo abandono um cidadão morto recentemente me alertou alguns meses atrás, depois de visitá-lo com a neta. A pouca distância da morte, ele estava angustiado como o personagem de Viver.
Soube um dia que Kurosawa era grande admirador do escritor russo Leão Tolstói (1828-1910). Teria lido dezenas de vezes, na íntegra, o romance Guerra e Paz, o que não é pouco para um monumental livro, com mais de mil páginas. Entendi, assim, um pouco da minha profunda admiração por Kurosawa. Ele transpôs para a tela do cinema muito da universalidade humanista do escritor. Em Guerra e Paz, Tolstói narra as grandes convulsões e heroísmos coletivos na Rússia czarista, à época da invasão napoleônica. Ao mesmo tempo, cria personagens individuais com uma existência espantosamente próxima e real. Pedro, André e Natasha, esses nobres cheios de sangue e pulsação, entram em nossos sonhos noturnos como o irmão que abre a porta de casa. Essa habilidade em descrever o épico e o doméstico, a história e a rotina, são evidentes nos filmes de Kurosawa. Em Dersu Uzala (1975) - cuja ação se passa em território russo - temos a descrição de um homem próximo da santidade, tamanha a sua sabedoria das pequenas coisas. O tipo, baseado no livro de Vladimir Arseniev, lembra, e muito, a admirável galeria de camponeses que o conde Tolstói sabia, como ninguém, moldar a partir do barro chamado literatura.
Kurosawa, como Tolstói, era um pacifista radical. Não titubeava, portanto, em denunciar a crueldade do homem, como mostra Ran (1985), adaptação da tragédia Rei Lear, de Shakespeare, para o Japão antigo. Na lembrança, permanece para sempre o forte jorro de sangue que tinge a parede, depois de cortada a garganta de uma traidora. As belas cores dos exércitos se compõem sobre a carnificina; filhos traem o pai, assim como o velho Lear foi traído pelas filhas. Kurosawa não é perfeito neste filme; há problemas de ritmo e preciosismo de imagem e enredo, que inspiram tédio em certas passagens. Mas quem dera todos os erros do mundo fossem iguais aos de Kurosawa... É fundamental assistir Ran na grande tela do cinema, como merecem os verdadeiros épicos.
Na visão do pacifista, a violência assume feições reais e tira a máscara, pois perde todas justificativas ideológicas. Homem preocupado em criar essências e harmonias, a Kurosawa causavam profundo temor a divisão do átomo e as consequências da energia nuclear. No lírico Rapsódia em Agosto (1991), o autor mostra a emoção de um norte-americano que visita, na década de 90, uma escola de Hiroshima destruída pela bomba. A suave voz de uma contralto, em tom menor, se eleva delicadamente, enquanto a câmera focaliza os ferros retorcidos de um parque infantil, onde todas as crianças morreram sob o calor atômico, naquele agosto de 1945. Mais uma vez o parque infantil.
Rashomon (1950) é um filme que precisa ser visto por todos jornalistas, advogados, historiadores, filósofos ou, enfim, por todos aqueles que se preocupam - ou deveriam se preocupar - com o conceito e a substância da verdade. As descrições de um mesmo crime, por várias pessoas, entre elas o próprio fantasma da vítima, nos colocam diante da opressora contradição inerente à vida humana: a relatividade dos eventos e a necessidade de agir diante deles, de maneira concreta.
É triste saber que, nas últimas décadas, Kurosawa estava sem dinheiro para realizar seus filmes, e era criticado por alguns japoneses, em função de um suposto defeito - ‘‘ocidentalismo’’. Além de ser uma acusação absurda, pois Kurosawa refletiu como ninguém as particularidades culturais e históricas de seu país - vide Os Sete Samurais (1954) - a atitude dos críticos amadores revela uma inadequação ao universalismo da linguagem artística, condição necessária ao entendimento entre os povos e ao processo civilizatório. Felizmente, Kurosawa foi auxiliado por admiradores ricos como Steven Spielberg e Francis Ford Coppola, que seguiram tantas vezes a lição do mestre. Em A Lista de Schindler (1993), de Spielberg, notamos a influência de Kurosawa quando há mútua exposição do ódio e da singeleza, da amizade e do martírio, da animalização do homem e da sobrevivência ética, tudo no lugar em que sofrimento é oxigênio: o campo de extermínio. Não por acaso, Spielberg abandonou o algodão doce hollywoodiano, para realizar uma obra imortal, ‘‘um dos filmes mais aterradores de todos os tempos’’, nas palavras de Antonio Callado.
O destino do falido Kurosawa não foi o mesmo do falido Orson Welles, o diretor de Cidadão Kane (1941), que morreu fazendo comerciais de vinho para a TV nos Estados Unidos. Apesar de incompreendido no Japão, Kurosawa teve ajuda financeira para trabalhar até o fim da vida em novos projetos. Em Sonhos (1990), Kurosawa mostrou obsessões, temores e desejos pessoais com inigualáveis clareza narrativa e solidez estética, em episódios separados. Dos sonhos infantis aos sonhos da velhice, Kurosawa exibe - sem retórica ou vacilos - um pomar de pêssego; um acidente com usinas nucleares; os fantasmas de um batalhão aniquilado na guerra; o futuro dos mutantes no pós-guerra atômico. Entre os vários relatos oníricos, destaca-se a homenagem a Van Gogh. O jovem personagem do sonho, pintor como Kurosawa foi na juventude, vai a uma exposição de Van Gogh e entra nos quadros do mestre, até encontrá-lo em um campo de trigo. Kurosawa reconstrói, na tela do cinema, os quadros de seu ídolo artístico. ‘‘O Sol me obriga a pintar. Não posso perder tempo conversando’’, diz o pintor holandês ao jovem de Sonhos. Van Gogh está com a orelha cortada; morrerá logo. Foi uma das supremas influências estéticas de Akira Kurosawa.
O testamento de Kurosawa é Madadayo (1993). O filme conta a história de um velho professor, dono de uma trajetória de simplicidade e seriedade, amado pelos alunos e respeitado pelos cidadãos. Há uma curiosa aproximação temática com Morangos Silvestres (1957), do último grande mestre vivo do cinema, o sueco Ingmar Bergman, que há pouco fez 80 anos.
Kurosawa, como Bergman, viaja à infância para explicar a velhice. Com muito bom humor, narra a angústia do professor erudito que perde seu gato de estimação - e que chora como uma criança por isso. A lição do testamento Madadayo é simples: por mais que o ser humano avance em direção à realidade, estará preso ao princípio do prazer, aos desejos e angústias da infância. A puerilidade surge nos mais elevados espíritos, pois constitui a origem da mente. A essência infantil não é vergonha para ninguém. Assim, os nossos primeiros anos devem ser analisados cuidadosamente nos momentos decisivos da vida. É preciso levar a infância a sério, da mesma forma que é dever respeitar a experiência do ancião.
A palavra madadayo significa algo parecido com o nosso ‘‘ainda não’’. É o que as crianças falam nas brincadeiras de esconde-esconde. O velho professor, no final da vida, ouve a expressão dentro do sono, como se fosse um canto para prender-se à vida. Talvez Kurosawa tenha pensado nestas palavras logo depois de tentar o suicídio, em 1971.
Neste setembro, pela primeira vez, o apelo madadayo foi negado ao cineasta. Kurosawa viveu os papéis de menino, jovem, adulto e ancião. Teve 88 anos para erguer uma obra e dar sentido à existência. Deixou-nos um parque de imagens e idéias vivas, em movimento. No parque das luzes chamado cinema, podemos celebrá-lo até o final dos tempos.

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