O parangolé pop de Adriana
O PARANGOLÉ
POP DE
ADRIANA
A cantora e compositora Adriana Calcanhoto está lançado Maritmo, um disco recheado de recursos eletrônicos
Por que tanto tempo sumida dos estúdios?
Adriana Calcanhoto - Olha, nem sei dizer o porquê direito. Tenho dito que esse foi o tempo que levou, o tempo necessário. Para começar um trabalho novo eu tenho que me sentir zerada do trabalho anterior. Pode demorar mais ou menos tempo. Eu até cheguei a antecipar esse trabalho contrariando minha intenção... Mas eu começava e sentia que não estava pronta e acabou levando esse tempo todo.
Não houve imposição da gravadora para preparar logo um disco?
Adriana Calcanhoto - Não. A gravadora, na verdade, tem uma cumplicidade comigo em relação a isso. Eu considero isso uma conquista pessoal e artística de impor o meu timming ao trabalho. Eu e a gravadora chegamos à conclusão que só dá certo assim.
Como é que você concebeu Maritmo? Ele aponta para qual direção?
Adriana Calcanhoto - O pontapé inicial dessa idéia foi em 92 quando fiquei sabendo do Parangolé Pamplona. Eu conhecia alguma coisa do Hélio Oiticica mas não profundamente e eu tive que estudá-lo. O Parangolé Pamplona é um parangolé que a própria pessoa faz. É interessante, é, eu diria, muito coerente com a coisa do Hélio. É um passo, uma coisa que ele queria fazer que é a de não ser uma obra que o artista fez. Então, a pessoa vai à loja e compra um retângulo de algodão e faz o seu parangolé. Achei interessantíssima e muito pop a idéia. Fiquei pensando muito tempo nisso. Fiquei pensando em qual seria a dança para esse parangolé. Então, encomendei uma letra para o Wally, uma canção para o Péricles (Cavalcanti). O disco começou assim.
Ou seja, apontando para a direção da dança?
Adriana Calcanhoto - Isso, apontando para a direção da dança.
O disco é apoiado em levadas percussivas eletrônicas. Sampleado mesmo. Se fosse para rotulá-lo poderíamos chamá-lo de pop?
Adriana Calcanhoto - Eu acho que sim, mas no melhor sentido do pop. Ele tem até um sintoma de pop por causa das levadas eletrônicas. Antes disso, o disco é pop no que ele pretende partindo dessa coisa do Parangolé do Hélio.
O Hélio, então, seria o mentor do disco?
Adriana Calcanhoto - Eu acho que sim. O Hélio, de uma maneira geral, tem uma grande influência na minha obra. Mas nesse disco tem a coisa desse parangolé, que ele não escreveu nada a respeito, que tem muito pouco material a respeito. Eu fui descobrindo coisas sobre ele conversando com pessoas que foram colaboradores da obra.
Existe uma certa dose de experimentalismo no disco. Que sonoridade você quis buscar?
Adriana Calcanhoto - Olha, quando estou fazendo essas coisas eu não fico pensando em que som eu vou chegar. O interessante do experimental é isso. O que tem impresso em meus discos é o resultado dos experimentos e não uma sonoridade que esteja buscando.
Maritmo busca mais o lado experimental que o Fábrica do Poema, não?
Adriana Calcanhoto - São duas linguagens bem diferentes. No Fábrica do Poema tem coisas como a faixa da Gertrud Stein que não configura uma composição musical. Nesse até tem também. A faixa do Caetano, por exemplo, eu fui à loja e comprei os 30 discos remasterizados e o livro dele que tem em qualquer banca de revista...montei, a partir disso, uma canção sem privilégio nenhum de informação.
Esse lado experimental já se manifestava no Fábrica do Poema, disco anterior. Mas havia uma intenção de ser mais elocubrativo, mais intelectual ao contrário de Maritmo que se propõe a ser elocubrativo porém mais dançante. Você concorda?
Adriana Calcanhoto - É... Eu acho que quando fui fazer o Maritmo eu estava pensando em ter, mesmo com todo o experimento que fosse possível, uma sonoridade pop. No Fábrica não havia essa preocupação; a preocupação era de soar o que tivesse que soar.
Foi difícil convencer Dorival Caymmi a voltar aos estúdios?
Adriana Calcanhoto - Não, foi facílimo. Na verdade não fui eu quem o convidou porque achei ser uma idéia impossível. Achava que ele não tinha mais vontade de ir aos estúdios. A gravadora o convidou e ele adorou e foi muito generoso. Acho que falei para alguém sobre a vontade de tê-lo no disco e quando vi tinha esse presente.
Como compositora você vem sendo gravada por gente de todos os quilates - Bethânia, Paulo Ricardo, Belô Velloso, Zezé Motta. Quem você gostaria que gravasse alguma coisa sua?
Adriana Calcanhoto - Quem quiser. Eu prometi uma música para a Gal e não devia ter feito isso. Não consegui até agora fazer uma canção para ela porque fico pensando no modo como canta e acaba ficando muito complicado. Talvez saia porque eu gostaria muito de fazer uma canção para ela.
Existe uma preocupação poética de sua parte quando você coloca letra em suas músicas?
Adriana Calcanhoto - Eu não coloco letra nas minhas músicas. Eu começo com uma levada junto com a letra e depois trabalho na melodia. É que eu fico pensando no acento da frase, qual a música indicada naquela frase. Minha música, na verdade, é só para revelar o que harmonicamente contém a frase dita em português. Mas existe uma preocupação sim.
Você regravou Por isso eu corro demais, do Roberto. Aliás, você mesmo disse certa vez que não se gosta dele em determinada época e, sim, por total. É isso?
Adriana Calcanhoto - É
Inclusive essa fase de cantar mulher gorda, mulher magra, mulher alta...
Adriana Calcanhoto - Eu não cantaria uma música dessas por não me identificar. Mas o Roberto tem muitos aspectos a serem analisados como por exemplo Por isso eu Corro demais, que é uma pérola, uma beleza... Eu acho que ele canta cada dia melhor. É impressionante o modo como ele canta.
É o rei ainda?
Adriana Calcanhoto - Ele é o rei
E a rainha?
Adriana Calcanhoto - Maria Bethânia, como todo mundo a chama
E você?
Adriana Calcanhoto - Eu sou uma súdita leal dos dois
Que espaço você quer cavar na MPB?
Adriana Calcanhoto - O meu. Eu não paro muito para pensar nisso não, sabe?
Antônio Mariano Júnior
Foram quatro anos sem gravar um a sequer em disco. O chá de sumiço dos estúdios, conforme explica Adriana Calcanhoto, se fez necessário para que pudesse elaborar com calma sua mais nova cria - Maritmo, seu quarto disco. O retorno acontece em grande estilo. Ou melhor, em clima de dança. E para isso, a cantora, compositora e instrumentista gaúcha resolveu buscar as maravilhas que os instrumentos eletrônicos podem proporcionar e fez o trabalho mais pop de sua carreira.
A concepção de Maritmo, como explica, começou em 92 quando se pôs a pensar numa das criações do artista plástico Hélio Oiticica, o Parangolé Pamplona. Ela acabou fazendo uma música. O parangolé era uma espécie de capas muito coloridas, feitas com um triângulo de pano, com as quais o artista se vestia para desfilar como passista na Escola de Samba Mangueira. Achei a idéia interessantíssima e muito pop - diz Adriana.
Interessante e pop também é Maritmo que, conforme explica a cantora, compositora e instrumentista gaúcha, é um disco, conforme sua definição, feito para dançar ou para falar de dança ou as duas coisas. Ao todo, 14 faixas a maioria assinada por ela ou feitas em parcerias com alguns bons poetas como Wally Salomão e Antonio Cícero. A seguir, os principais trechos que Adriana Calcanhoto concedeu à Folha2





