O PARANÁ PERDE SEU ARTISTA MAIOR
Poty Lazzarotto morre aos 74 anos, de câncer, deixando uma enorme lacuna na vida cultural do Estado
Luiz Claudio Oliveira
e Simone Mattos

Arquivo Folha
Poty, rodeado de crianças, no dia de seu aniversário, em 29 de marçoOntem Curitiba amanheceu de luto. Um dos mais geniais artistas plásticos do País, Napoleon Potyguara Lazzarotto, o Poty, pela primeira vez entristeceu a cidade. O artista, de 74 anos, não resistiu a um câncer nos pulmões e partiu, deixando uma imensa lacuna na vida cultural curitibana. Suas obras, entretanto, o tornarão imortal.
Ele foi internado na última quarta-feira no Hospital Santa Cruz, em Curitiba. A família e os amigos comentaram que o artista ganhou mais vitalidade e criatividade depois que soube que tinha câncer nos pulmões, há oito meses.
Prova disto é que Poty não parou de produzir até poucos dias atrás, acreditando sempre que iria se recuperar e dar continuidade ao seu intenso trabalho.
‘‘Infelizmente não poderemos transformar em painéis suas gravuras que permaneceram inéditas, pois era apenas ele quem fazia as formas para ampliação’’, explicou o construtor Rozério Machado, que nos últimos onze anos trabalhou em sua equipe, responsável pela ampliação de suas obras no concreto.
Apesar da natural tristeza de todos que compartilharam da sua vida e obra, os que amavam Poty Lazzarotto permaneceram tranquilos ontem. ‘‘Sei que ele foi muito feliz, pois sempre fez o que mais amava em sua vida’’, afirmou o artista plástico, amigo pessoal e curador da última exposição de Poty, Domício Pedroso.
‘‘Ele era um madrugador, acordava às 6 horas, comprava os jornais do dia e ilustrava as matérias principais’’, contou. Estes desenhos, que eram colocados nas gavetas ou até mesmo jogados no lixo, na opinião de Domício, comprovam a paixão de Poty pelo seu trabalho. ‘‘Além dos inúmeros compromissos que tinha, ele gastava suas horas vagas trabalhando por prazer.’’
Sempre foi assim. Poty nasceu em Curitiba em 29 de março de 1924 e desde cedo mostrou afinidade com as artes. Começou seus estudos em Curitiba, mas com 18 anos transferiu-se para o Rio de Janeiro para cursar gravura no Liceu de Artes e Ofícios, tendo como mestre Carlos Oswald.
Em 1946, ganhou uma bolsa do governo francês e foi a Paris estudar na Escola Superior de Belas Artes, especializando-se em gravura. Voltou ao Brasil em 1948 e foi premiado no Salão Nacional de Belas Artes, do Rio de Janeiro.
Passou a ser requisitado pelas editoras e pelos maiores escritores brasileiros para ilustração de livros importantes da literatura nacional. Entre os escritores ilustrados por Poty estão Graciliano Ramos, Guimarães Rosa, Jorge Amado, Gilberto Freyre, Machado de Assis, Euclides da Cunha e José de Alencar, entre outros. Também ilustrou edições nacionais de autores clássicos, como Tchekov, Maximo Górki e outros.
Em 1969, ganhou o prêmio de melhor ilustrador de livros na 10ª Bienal de São Paulo. Para este tipo de trabalho, a técnica mais utilizada era a de ponta seca (gravura em metal).
Depois que retornou da Europa, Poty voltou a Curitiba e enfronhou-se na vida artística local. Ao mesmo tempo em que era requisitado para os trabalhos nacionais, colaborava com a revista Joaquim, editada por Dalton Trevisan. Também lecionou na cidade, ajudando a formar vários artistas. Ao mesmo tempo mantinha uma carreira internacional participando de várias exposições na Europa e Estados Unidos.
Passou a ser chamado para realizar murais, trabalhando com o concreto e o azulejo, além de vitrais. São dele as obras das fachadas do Palácio Iguaçu, Hospital das Clínicas, Teatro Guaíra, Praça 19 de Dezembro e do Palácio Avelino Vieira, prédio sede do HSBC Bamerindus, em Curitiba, do mural ‘‘Tropeiros’’, na Lapa, de painéis no Memorial da América Latina, em São Paulo.
Trabalhando com azulejos, tem vários murais instalados em Curitiba, como os da Travessa Nestor de Castro, no Largo da Ordem, os do Aeroporto Afonso Pena, e mais recentemente foi inaugurado um painel na loja das Livrarias Curitiba em plena Boca Maldita.
No ano passado, num exemplo de generosidade e desprendimento, doou todo o seu acervo para o Museu Metropolitano de Arte de Curitiba (Muma). Neste mesmo museu fica a sala Cecília Neves Lazzarotto, nome de sua esposa. Boa parte deste acervo doado foi mostrada ao público na primeira exposição do ano feita no Muma.
O artista também dava atenção especial às crianças e neste ano, em março, teve um emocionado encontro com um grupo de 60 estudantes do Colégio Expoente. Antes do encontro, as crianças foram levadas pelos professores a conhecer algumas das obras do artista e depois elas tentaram interpretar com desenhos um trabalho do mestre. Poty, no meio delas, parecia um atencioso e emocionado avô recebendo presentes de seus netos, no dia em que completava 74 anos.
Os mais recentes trabalhos do artista foram, além do painel da Livrarias Curitiba, outro grande, para a Itaipu Binacional e, o mais recente deles, o esboço para o painel que será instalado em comemoração aos mil transplantes de medula óssea do Hospital de Clínicas.

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