O Paraná e a nova música paranaense
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 08 de fevereiro de 1999
Luiz Claudio Oliveira 
É realmente difícil encontrar a música paranaense citada pela grande imprensa nacional. Mais raro ainda que esta citação seja elogiosa. Não que os músicos e compositores paranaenses não mereçam, mas que é raro, é. Pois o CD Cantos da Palavra acaba de ser incluído pelo crítico Tárik de Souza, do Jornal do Brasil, numa relação de cinco discos relativamente recentes que mantêm acesa a chama da criatividade na música brasileira.
Completam a relação do crítico os CDs Caracane (Dabliú), de Marcos Sacramento; Na Minha Cara (Independente), de Rita Peixoto & Carlos Fuchs; Mergulhar na Surpresa (Atração), de Maurício Pereira; e Pretobrás (Atração), do também paranaense radicado em São Paulo, Itamar Assumpção.
Cantos da Palavra é um CD lançado em meados do ano passado pela dupla de compositores Marcelo Sandmann (contatos pelo telefone 041/338-4996) e Benito Rodriguez, com a cantora Sílvia Contursi. Os dois são professores da Universidade Federal do Paraná e ela, até recentemente, respondia pelo vocal feminino do Grupo Fato - também de Curitiba e não menos criativo e importante para a nova música paranaense.
A parceria dos mestres em literatura brasileira Marcelo Sandmann (UFPR) e Benito Rodriguez (USP) na voz de Silvia Contursi injeta (na música brasileira) sutilezas ritmo/melódicas/harmônico/poéticas em Cantos da Palavra. Viaja-se do corrosivo rock de O fim da história ao Samba na feira (gravado entre pregões), o economês suingado de Juros de amor e a marchinha cibernética www.infolia.com.pc, escreve Tárik de Souza.
O crítico tem toda razão em elogiar o CD que é realmente belo e deveria servir de inspiração a todos os intérpretes que estão à procura de bons compositores. Foi um belo gol do jornalista que mostrou-se aberto à produção fora do eixo Rio-São Paulo. O exemplo deveria ser mais seguido por seus colegas do já citado eixo, que só olham para o umbigo, ou mesmo pelos críticos paranaenses que só têm olhos para o que vem de fora.
A música paranaense, em todas as suas mais variadas notas, arranjos e instrumentação, está cada vez mais criativa e participativa no que diz respeito à produção. No entanto, o mesmo não se pode dizer quanto à divulgação, à crítica e, consequentemente, ao mercado. As nossas próprias rádios recusam-se a tocar nossa música e a televisão recusa-se a mostrar nossos músicos. Por que? Por pura burrice.
Um verdadeiro trabalho de guerrilha, no entanto, faz com que a música produzida por aqui vá abrindo espaços e ganhando adeptos, mesmo que ainda timidamente. Já temos até alguns exemplos de internacionalização, como o Grupo Fato (041 242-1585 - [email protected]), que acaba de ter o CD Fogo Mordido lançado na Europa. A banda Catalépticos (Vladimir Urban: 041 - 224-0121), a melhor coisa em psychobilly que aconteceu no Brasil, teve que ir a Londres para lançar seu primeiro CD e é mais tocada nas rádios da Europa do que nas rádios daqui.
Outros exemplos não faltam e vou citar apenas alguns, mesmo correndo o risco de confiar numa memória que tanto falha nestas horas. A banda de música instrumental Tocaia (Glauco Solter: 041/224-9729), foi aplaudida de pé no Guairão, no ano passado, durante uma das sessões do Heineken Concerts, agradando mais do que algumas atrações internacionais daquela edição. Todos que queriam comprar o CD da banda não o acharam nas lojas que só vendem o que sai pelas grandes gravadoras.
A banda Maxixe Machine (Luiz Ferreira: 041/974-0534) abriu o megashow de Marisa Monte e Caetano Veloso na Pedreira e está para tirar um projeto do forno que inclui disco, filme de ficção sobre a história do samba e revista de música. Corre o sério risco de ser sucesso nacional antes mesmo de conseguir ser tocado nas rádios e aparecer nas TVs do Paraná.
Bernardo Pelegrini e o Bando do Cão Sem Dono é outro que luta contra a falta de visão e consideração dos programadores de rádios e televisões locais. O mesmo acontece com o catarinense-paranaense-paulista Carlos Careqa (011/277-5915) que acaba de lançar o maravilhoso CD Música Para Fim de Século. O grupo Terra Sonora (041/273-1046), que pesquisa a sonoridade do mundo também acaba de lançar um excelente CD, mas você vai ouvir onde? Comprar onde?
Para listar alguns outros, temos a Orquestra Brasileira, do Conservatório de MPB de Curitiba, Os vocais Brasileirinho e Brasileirão, os grupos Viola Quebrada, Alegro Ma Non Presto, Wir, Boi Mamão, Relespública, Bartenders, Blindagem e músicos avulsos das áreas eruditas e instrumental, como Helinho e toda a famíia Brandão, Mário Silva Junior, João Egashira, Sérgio Albach, Waltel Branco e as cantoras Anna Toledo, Liane Guariente, Chiris Gomes e tantos e tantos outros nomes que encheriam facilmente toda a programação de boas rádios, como a Educativa FM, em Curitiba, ou a da UEL, em Londrina, duas das únicas que prestigiam a música paranaense.


