O Paraná de bem com o palco
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 29 de julho de 2003
Célia Musilli<br> Enviada a S.José do Rio Preto 
O cotidiano de duas amigas, o bate-papo entre mulheres, a cumplicidade reafirmando a amizade à toda hora, o nervosismo batendo à porta na época da TPM, os namorados inspirando momentos de poesia e reflexão, o sexo discutido com humor, o teatro como ponte entre vida e a arte. Todas essas propostas estão no espetáculo ''A Volta ao Dia em 80 Minutos'', que a Companhia Brasileira de Teatro levou ao Festival de Rio Preto. O grupo curitibano somou pontos no evento, mostrando o Paraná de bem com o palco nas apresentações que cativaram o público pela ousadia de levar à cena, entre outras coisas, a conversa íntima das mulheres de forma despojada.
Misturando as linguagens do teatro e do vídeo, pontuando as cenas com hits musicais de sucesso ou até embarcando num divertido karaokê, as atrizes Christiane Macedo e Maureen Miranda incorporam duas amigas que, por acaso, começam a dividir um apartamento e a partir daí inserem o público numa viagem ao cotidiano com espaço aberto para o humor e as lágrimas.
A montagem é inspirada no texto homônimo do argentino Júlio Cortázar, mas recebe enxertos de histórias pessoais, através de fragmentos e memórias do diretor do grupo, Márcio Abreu, e das duas atrizes. Abreu também assina a dramaturgia e o roteiro do espetáculo.
Com todo merecimento, Maureen Miranda faturou dois prêmios de melhor atriz em 2002 pela atuação em ''A Volta...'': o Troféu Gralha Azul e o Troféu Poty. Também emplacou como Melhor Atriz na 1 Mostra da Fundação Cultural de Curitiba, onde a montagem ainda levou o prêmio de Melhor Espetáculo.
Divertido e lírico, ''A Volta...'' provoca diferentes reações no público. O riso é inevitável nas cenas que tratam da sexualidade e põem a nu expectativas femininas ao abordar, por exemplo, ''a melhor maneira dos homens tocarem os seios das mulheres''. Aos interessados de plantão, é bom explicar que, segundo a ''fórmula'', é de cima para baixo e nunca beliscando os mamilos...''senão a mulher se sente uma vaca'. Se a frase não está correta, o sentido é exatamente esse num contexto que escancara a privacidade sem parecer banal, batendo em pontos nevrálgicos da relação homem/mulher. O lirismo também pontua fragmentos de encontros amorosos e lembranças afetivas são embaladas com sopros precisos de emoção levando o expectator a viajar num território sensível através das personagens.
O espetáculo que tanto agradou o público, ao mesmo tempo provocou o azedume de um crítico paulistano que foi ao Festival de Rio Preto para destilar sua ira, mais do que para discutir teatro. Nas sessões de bate-papo, feitas para se debater as montagens e as atuações, ele declarou que a Companhia Brasileira de Teatro curitibano ''não compreendeu Cortázar''. Na verdade, o grupo deixa claro que se trata de uma adaptação e, a partir disso, faz uma leitura livre de amarras. O que acontece no Brasil é que parte da crítica expecializada do eixo Rio-São Paulo ainda se comporta de forma forma extremamente arrogante quando avalia o trabalho de outras regiões do País. Um ranço que apenas demonstra a necessidade de um exercício de poder fora de moda e que não se explica no contexto de festivais onde a troca de experiências deve ser encarada de forma mais abrangente. Certos críticos fariam melhor se optassem por desarmarem-se de opiniões cristalizadas, enxergando um pouco além do ''eixo'' que, por sinal, exporta às vezes coisas muito ruins para o Brasil. Parte dessa produção que deixa a desejar só não é impiedosamente criticada nos seus centros de origem porque a política de boa vizinhança ainda impera e equilibra interesses quando a briga é de ''cachorros grandes''.
As jornalistas viajaram a Rio Preto a convite da organização do festival.


