MEMÓRIA O PARAÍSO MESTIÇO Há cem anos nascia Gilberto Freyre, o pesquisador que investigou a cultura brasileira a partir da miscigenação Agência EstadoGilberto Freyre: pesquisador viu a miscigenação na cultura brasileira com outros olhosAgência EstadoCasa de Gilberto Freyre: objeto de sua obra e o local onde escreveu seus livros, entre eles ‘‘Casa-Grande e Senzala’’Josoé de CarvalhoLúcia Helena Oliveira Silva, pesquisadora da Universidade de Londrina: Gilberto Freyre via a miscigenação como uma democracia racial Marcos Losnak De Londrina Especial para a Folha2 Após muitos anos esquecido pela imprensa, o sociólogo pernambucano Gilberto Freyre (1900 - 1987) volta a ser o foco das atenções por ocasião do centenário de nascimento comemorado hoje. Novas edições de seus livros, documentários, seminário internacional, CD-ROM, concurso de monografia e outros eventos resgatam a obra daquele que é considerado grande responsável pela visão otimista da miscigenação que deu origem a uma cultura genuinamente brasileira. Amado, Freyre revolucionou a sociologia brasileira na década de 30. Odiado, apoiou o golpe militar de 64 caindo no ostracismo. Sua grande obra, ‘‘Casa-Grande e Senzala’’, publicada originalmente em 1933, é uma referência mundial quando se fala de relações raciais. Obras como ‘‘Sobrados e Mucambos’’ e ‘‘Ordem e Progresso’’ complementam sua posição pioneira dentro de abordagens históricas em correntes como história social e do cotidiano. Filho de uma rica família pernambucana, Gilberto Freyre (Gilberto de Melo Freire) nasceu em Recife em 15 de março de 1900. Direcionou suas pesquisas para mostrar que a miscigenação brasileira é algo único e positivo, dando origem a uma ‘‘democracia racial’’. Em sua visão, nenhum moderno povo colonizador se igualou aos portugueses: ‘‘Foi misturando-se gostosamente com mulheres de cor, logo ao primeiro contato. E multiplicando-se em filhos mestiços.’’ Entre as abordagens realizadas por Gilberto Freyre, destaca-se a contribuição da mulher negra na constituição do povo brasileiro. Em suas palavras todos os brasileiros trazem a inconfundível marca da influência da mulher negra: ‘‘Da escrava ou sinhama que nos embalou. Que nos deu de mamar. Que nos deu de comer, ela própria amolegando na mão o bolão de comida. Da negra velha que nos contou as primeiras histórias de bicho e de mal-assombrado. Da mulata que nos iniciou no amor físico e nos transmitiu, ao ranger da cama de vento, a primeira sensação completa de homem.’’ Na entrevista a seguir, a pesquisadora Lúcia Helena Oliveira Silva, professora do Departamento de História da Universidade Estadual de Londrina e estudiosa da obra de Gilberto Freyre, fala sobre a trajetória do pensamento do sociólogo e suas implicações. Para Lúcia Helena, o grande papel de Freyre foi ‘‘romper com uma tradição que acreditava que o Brasil miscigenado estava fadado ao atraso’’. Ele concedeu um aspecto positivo para a miscigenação, recuperando a contribuição do negro. Nas palavras da pesquisadora, ‘‘o lado ruim é que ele também trouxe uma idéia de que a escravidão brasileira foi harmoniosa, sem conflitos’’. Qual a trajetória intelectual de Gilberto Freyre? Ele vem de uma família rica mas decadente de Pernambuco e teve uma educação esmerada - fez mestrado nos Estados Unidos. Isso foi algo diferente porque a grande maioria dos estudiosos brasileiros da época ia para a França e ele foi para os Estados Unidos. Quando Freyre volta traz influências diferentes. Quando chega ao Brasil passa a desenvolver ‘‘Casa-Grande e Senzala’’, um trabalho muito diferenciado do que era feito na época. O que há de novo é que ele vai utilizar fontes que até então ninguém havia utilizado - diários de família, receitas, depoimentos, e isso era extremamente novo. Qual a importância que ele possui dentro do pensamento brasileiro? É necessário ver o que se discutia no período. Havia a preocupação de uma república que se formava e o povo que existia nela. Pela visão geral, o grande problema era a enorme quantidade de povos miscigenados. Os intelectuais achavam que a presença negra e a miscigenação iriam levar o país a um atraso iminente, acreditavam que a população iria se degenerar por completo. A grande novidade no trabalho de Freyre é que ele via, pelo contrário, a miscigenação como algo positivo, como uma coisa importante. Para ele, a presença de três povos - branco, negro e índio - a mistura deles, era uma coisa boa. Freyre é o primeiro a ter uma visão positiva da miscigenação, enquanto todos os outros estudiosos achavam que ela era causa do atraso. Ele é a primeira pessoa a pensar positivamente nesse sentido. O que ele via concretamente de positivo nessa miscigenação? Ele se debruça principalmente na questão da presença negra no Brasil e sua miscigenação. Ele vai fazer uma diferenciação da escravidão ocorrida aqui e a ocorrida nos Estados Unidos influenciando uma grande quantidade de brasilianistas. A questão era: como nos Estados Unidos acontecia um esquema de racismo tão forte, uma segregação racial em forma de lei, e no Brasil isso não acontecia? Quando eles começam a ler Gilberto Freyre passam a entender que no Brasil o negro era aceito dentro da população, influenciava a cultura, coisa que não acontecia nos Estados Unidos. Qual o motivo que Freyre aponta para esse processo ter acontecido apenas no Brasil? Ele aponta a influência portuguesa. Os portugueses foram influenciados pelos mouros, pela invasão árabe, o que proporciona uma visão muito diferente do que ocorreu nos Estados Unidos com a influência inglesa. Ele diz que o português é mais sentimental, mais tranquilo, despreocupado com a miscigenação. Ele pode se casar com uma negra, com uma índia. Embora ele prefira a mulher branca, o filho que vai ter com uma negra, o mulato, permanece como uma espécie de agregado. Nos Estados Unidos essa figura não existe. Esse intercâmbio entre os povos só vai acontecer aqui. Essa experiência brasileira é única no mundo? É única. Mas, a partir disso, muitos pesquisadores podem pensar que o Brasil é um paraíso racial e isso vai explicar por que alguns amam e outros odeiam Gilberto Freyre. Por quê? Quando o trabalho dele surge, na década de 30, Caio Prado Junior estava escrevendo sua obra sobre a formação econômica do Brasil. Como comunista, Caio Prado se baseia sobretudo na questão econômica, nos modos de produção. Ele é que vai surgir com a idéia dos ciclos, o ciclo do ouro, o ciclo da cana-de-açúcar, a explicação da história passando, sobretudo, pelo viés econômico. Já para Freyre, a explicação da história passava pelo cultural. Essas duas suas visões vão influenciar a grande maioria dos intelectuais brasileiros a partir da década de 40. No mesmo período que Gilberto apresentava a miscigenação como algo positivo a segregação racial tomava grandes proporções com o nazismo. Ouve algum conflito nesse sentido? A Segunda Guerra Mundial com milhões de mortes por questões raciais vai acender uma série de discussões. Florestan Fernandes, por exemplo, a pedido da Unesco, começa a desenvolver uma pesquisa sobre a harmonia racial no Brasil. Entre membros da equipe que participaram da pesquisa estava Fernando Henrique Cardoso. A tese de Gilberto Freyre era que no Brasil havia uma democracia racial, uma harmonia entre as raças. Bom, o resultado da pesquisa demonstrou absolutamente o contrário, demonstrou que não só não há harmonia racial no Brasil como existia um preconceito muito grande. Isso refutava as idéias do Freyre. Na década de 50 inúmeros intelectuais marxistas vão dizer que, o fato de Gilberto não se debruçar na economia, fazia dele um direitista, um acrítico. Ele via a escravidão como uma coisa dócil, como se a escravidão do negro no Brasil não tivesse sido tão ruim, uma escravidão benevolente. Como se no Brasil o escravo africano tivesse sido bem tratado? Exatamente. Ele dizia que os escravos eram bem tratados aqui, que viviam bem. E a grande maioria dos intelectuais passou a trabalhar para mostrar que isso não era verdade, que a escravatura foi um sistema pesado, violento, uma exploração da mão-de-obra negra - e que explicava, inclusive, a situação de marginalização do negro. Esses pesquisadores passam a ver o trabalho de Freyre como conservador. Essa tese passou a ser reforçada com seu apoio ao golpe militar de 1964? A situação piorou quando ocorreu o golpe de 64 e ele foi um dos colaboradores, apontando quem era comunista, quem deveria ser preso e quem não deveria ser preso. Isso tornou a situação difícil, colocando-o no ostracismo. A partir de 1964 seu trabalho nem é sequer citado pelos pesquisadores. Ele só passou a ser recuperado no final década de 80 com o advento da história social. Hoje, por exemplo, temos uma história social voltada para como as pessoas viviam. A política, a economia é algo legal mas as pessoas também querem saber, por exemplo, como as pessoas casavam e amavam. Freyre já desenvolvia esse trabalho em 1933, mas por conta de suas posições políticas ele foi mal interpretado. Pode se dizer que ele criou um conceito de brasilidade? Sim, ele oferece uma visão positiva da miscigenação. Em seus textos ele fala muito da influência da mulata, de sua inerente sexualidade, como o português não conseguia deixar de se sentir atraído por elas. Brincando eu digo: Gilberto Freyre inventou essa mulatas do Sargentelli. Essa visão de sensualidade e nudez foi espalhada pelo mundo. E a visão que ficou lá fora é a visão do Gilberto Freyre. Você acha que, de certa forma, sua obra é responsável pela visão esteriotipada que o exterior possui do Brasil? Eu acho. Se você levar em conta que ‘‘Casa-Grande’’ foi traduzido oficialmente para 54 línguas e que ele foi lido por muita gente no exterior, pode-se dizer que sua influência foi enorme. Por outro lado seus críticos e debatedores não foram tão lidos quanto ele. Então uma boa parte da visão que se tem do Brasil se deve a ‘‘Casa-Grande e Senzala’’. Os pesquisadores após a leitura de sua obra podem chegar a conclusões diversas, mas é inegável que ele influenciou e influência grande quantidade de estudiosos. Ele é um grande expoente, é um autor com quem as pessoas ainda dialogam, seja para refutar suas idéias ou para dizer que ele não estava tão errado.

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