O paradoxo do Atacama
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 05 de setembro de 2001
Emerson Dias 
Conhecer San Pedro de Atacama é como retornar aos tempos da colonização espanhola pouco depois da descoberta do continente americano em 1492. Construções do século 16 continuam intactas graças aos cuidados de órgãos federais (Conaf) e principalmente dos próprios moradores. A ausência de chuvas e o excesso de sal e enxofre no solo e na atmosfera são outros fatores que mantêm a boa conservação dos monumentos históricos, principalmente a igreja central, construída em 1557.
O ''centro'' da cidade é composto por três ruas que cortam sete alamedas. San Pedro conta com 15 pousadas e as diárias variam de US$ 5,00 a US$ 20,00 (existem ''pousadas de luxo'' que cobram US$ 65,00 por pessoa, assim como campings que custam US$ 3,00). Apesar de pequenino (cerca de mil pessoas vivem no local), o vilarejo conta com posto telefônico, internet, correios e minimercados satisfatoriamente abastecidos (porém, caros). A água é o produto mais precioso entre as prateleiras, chegando a custar 650 pesos chilenos o litro (cotação atual é de US$ 1,00 para 575 pesos chilenos). Somente para comparar, a cerveja custa 500 pesos.
A razão é simples: a água consumida vem do degelo da neve andina porque são raríssimas as chuvas na região. Segundos alguns comerciantes, a última ''lluvia fuerte'' ocorreu há 18 anos. É também devido à falta de chuva que muitas casas e bares locais não possuem cobertura. As paredes são de barro, seguindo a tradição da cidade e também as determinações da Conaf (o Ibama deles, que inclui também cuidados com patrimônios arquitetônicos tombados). As raras coberturas são feitas em madeira e ramos.
Incrustrada em pleno Atacama, o deserto mais seco do mundo, San Pedro é rica em sal e enxofre (ainda sobrevivem empresas mineradoras destes produtos na região), mas os viajantes preferem mesmo é desfrutar o único local do planeta onde as temperaturas variam de 20ºC abaixo de zero para escaldantes 40C positivos em apenas 100 quilômetros.
Para conhecer o vilarejo não é preciso fazer reservas em hotéis ou programar um roteiro rígido dos passeios. A qualquer hora você pode contratar um guia para conhecer a fauna e flora exóticas da região, seja de bicicleta, van ou simplesmente caminhando.
Pelo menos oito empresas integram o trade turístico local, oferecendo 15 passeios. Entre os mais conhecidos dos aventureiros, os Geisers del Tatio se transformaram em parada obrigatória. É preciso acordar às três horas e percorrer 85 quilômetros de deserto em vans. Devido ao terreno irregular, a ''viagem'' até a planície da ''fumarolas'' (como os habitantes chamam os gêiseres) dura três horas.
As imagens, no entanto, valem todo o sacrifício. Sob um frio de quase -20ºC, dezenas de fontes jorram água fervente sobre o vale encoberto pelos vapores. Além de se deliciar com um café da manhã oferecido pela empresa no ''inferno gelado'' (outro apelido ''carinhoso'' dado pelos moradores), os turistas podem mergulhar em uma piscina de pedra formada pelas águas quentes em meio às montanhas nevadas dos Andes.
O retorno, por volta do meio-dia, é ainda mais compensador. Saindo das planícies nevadas e passando por cactos e terras áridas, é possível encontrar vicunhas, aves de rapina e a famosa ''zorra atacamena'', a raposa parda do deserto.


