O paradão dos piratas
PUBLICAÇÃO
domingo, 30 de dezembro de 2001
Nelson Sato<br>Reportagem Local 
O repórter chega na barraca dizendo que vai escrever uma reportagem sobre o paradão dos piratas.
Quais foram os CDs mais vendidos na semana do Natal?
O rapaz, desconfiado atrás da pilha de CDs, pergunta se a publicação da matéria no jornal não poderá prejudicá-lo.
Olha lá, hein, cara!
Mauro Figueira (nome fictício) é um dos muitos camelôs de Londrina que comercializam CDs piratas à luz do dia. Afirma que vendeu cerca de 20 cópias do último disco do rei, ''Roberto Carlos MTV Acústico'', e outras tantas do também CD acústico da dupla sertaneja Bruno & Marroni.
O Bruno & Marroni foi o que mais vendeu durante o ano. Não teve para ninguém.
Quem diz é Solange Aquino (nome fictício), também dona de uma barraca. Segundo ela, CDs de Sandy & Júnior, Xuxa, Daniel e do cantor romântico Robinson também foram bastante procurados pela clientela nos dias que antecederam a festa natalina.
O elenco de citados se repetiu ao longo das demais barracas visitadas. Circulando por ali, o bancário Virgílio Accioli procurava um CD do Padre Marcelo Rossi para dar de presente a uma amiga. Diz que não é de frequentar as barracas, mas acha compensador comprar CDs no local.
Os CDs nas lojas custam entre R$ 20,00 e R$ 25,00. Aqui, o pessoal faz uma promoçãozinha e você pode levar até uns seis títulos com esse mesmo dinheiro.
Os preços fazem a diferença, e estão colocando muita gente longe das prateleiras de discos oficiais. O fenômeno é nacional. A adulteração chegou a tal ponto que, segundo estimativas da Associação Brasileira dos Produtores de Discos (ABPD), as unidades falsificadas dominam atualmente 50% do mercado no país. Em outras palavras: de cada dois CDs vendidos em 2001, um foi fabricado no fundo do quintal de algum espertalhão local ou veio de contrabando do Paraguai.
No Brasil, cresce a reprodução doméstica em CDR (o CD gravável) com a utilização de computadores de oito drives cada, que copiam 100 unidades a cada 15 minutos. Por se tratar de uma atividade sem nenhum controle, boa parte das peças comercializadas gera desconfiança entre os consumidores. Suspeita-se, por exemplo, que as cópias ilícitas soltem uma resina capaz de danificar os aparelhos de som.
O assunto levanta controvérsias. Os estudantes Bruno A. Lopes e Marcelo Bansoni divergem sobre a durabilidade dos CDs piratas. Este último acabou de comprar uma coletânea reunindo sucessos das bandas norte-americanas Aerosmith e Guns N' Roses, inexistente no mercado oficial.
Ouvi dizer que o som vai desaparecendo com o tempo de uso.
Isso não tem nada a ver. Já comprei outros CDs piratas e nunca tive problemas.
Consultado pela reportagem, o camelô Jonas Leite (nome fictício) garante a qualidade dos produtos acrescentando que ''caso um CD apresentar defeito, é só trazer que a gente troca''. Ele aproveita para listar os títulos mais vendidos em sua barraca na última semana, não se diferenciando dos demais, com a exceção do álbum de Supla (''O Charada Brasileiro'') e da trilha sonora da novela O Clone.
O alvo preferencial da pirataria são os artistas de maior apelo popular, principal fonte de lucros das gravadoras. Em 2001, eles foram vítimas mais uma vez, só que num grau nunca antes alcançado. O resultado é que o mercado ilícito acabou tirando o Brasil do sexto lugar que ocupava em 1997 no ranking dos maiores vendedores de discos no mundo. Nesta temporada, o país caiu para o 12º posto.
Para combater os produtos fora-da-lei, as gravadoras passaram a investir em estratégias incomuns na indústria. A Universal chegou a encartar cupons nos últimos CDs de Sandy & Júnior e Padre Marcelo Rossi através dos quais o comprador concorre a uma viagem ao exterior com os artistas. Nos Estados Unidos, os executivos da multinacional foram foram mais longe. Aflitos com o avanço da pirataria, acabam de lançar o primeiro CD anticópias produzido em escala comercial. O título escolhido foi a trilha sonora do filme ''The Fast and the Furious''.


