Paraty - Homenageado da Flip 2013, o escritor Graciliano Ramos foi tema de mais uma mesa manhã de ontem. Randal Johnson, Sergio Miceli e Dênis de Moraes conversaram sobre a atuação política do escritor. Graciliano foi prefeito de Palmeira dos Índios (Alagoas) e filiado ao Partido Comunista.
Moraes, autor de "O velho Graça - Uma Biografia de Graciliano Ramos", afirmou que o escritor deixou um legado político ainda muito atual. "Graciliano diz muito sobre 2013, sobre esses protestos, essas reivindicações por demandas da sociedade. Para uma geração que protesta contra tarifas, contra uma copa milionária em um país com tantos problemas, Graciliano chama a atenção para a coerência ética. Ele deixa um legado de que é possível exercer a política com p maiúsculo."
"Se vivo fosse, ele estaria apoiando os protestos e as manifestações populares. Ele teria sido uma voz crítica - estaria aplaudindo as manifestações da cidadania, pedindo mais e mais, e faria duras criticas à repressão", completou, sendo muito aplaudido.
Randal Johnson, professor titular da Universidade da Califórnia e estudioso da obra de Graciliano, relembrou que o escritor implantou uma gestão extremamente moderna em sua gestão como prefeito de Palmeira dos Índios, entre 1928 e 1930.
"Ele tentou sanar as finanças, limpar as ruas, cobrar impostos atrasados. Combateu o clientelismo e a corrupção."
Moraes também comentou que o interesse de Graciliano pela política já era visível desde o início dos anos 1920, nas crônicas "insubordinadas e de espírito zombeteiro" que escreveu para o jornal "O Índio".
O sociólogo Sergio Miceli completou o debate relacionando a experiência política aos romances de Graciliano. Para o pesquisador, os protagonistas de "Caetés", "São Bernardo" e "Angústia" lidam com o problema da potência e da impotência, tanto política quanto sexual.
Miceli fez uma explanação muito aplaudida ao relacionar as tramas e as relações entre os livros.
"O Luis da Silva, de 'Angústia', é o que perdeu tudo, foi relegado à condição de funcionário burocrático infeliz. É obcecado por sua insatisfação sexual, sempre acha que todas as pessoas estão transando. O Antonio Candido fez um artigo notável sobre isso. Ele diz que o Luis da Silva tem um ingrediente em seu comportamento que é esclarecedor, ele tem fixação com os símbolos fálicos."

Política e crise de geração
A política, um dos temas centrais da Flip 2013, também esquentou o debate na tarde de ontem na Flip. Os escritores Paulo Scott e José Luiz Passos, com mediação de João Gabriel de Lima, participaram do encontro "Formas de Derrota".
Scott é autor dos romances "Habitante Irreal" e "Ithaca Road". Passos lançou recentemente o romance "O Sonâmbulo Amador".
Em comum, as tramas desses livros traduzem as desilusões, tanto pessoais quanto políticas, de seus protagonistas, seres perdidos em um universo com poucas - ou nenhuma - possibilidade de redenção.
"Meu interesse era contar a história de alguém para quem o desencantamento com a vida acontece com certa graça, com leveza. O meu modelo foi o de 'Dom Quixote', da amizade, de amigos que compartilham o sonho um do outro", argumentou Passos.
O tema provocou um debate sobre política, sociedade e conflitos de geração.
"Eu escrevo a partir do que me incomoda em mim mesmo, do que me incomoda nos outros e de como eu incomodo os outros", disse Scott.
Por meio dos desacertos de seus personagens, Scott pretendeu fazer uma balanço crítico de sua geração. "É um acerto de conta. Nós militamos e juramos que não cometeríamos os mesmos erros no processo de redemocratização. Mas nós falhamos. É preciso assumir a impossibilidade de realizar nossos sonhos de juventude e aprender a suportar essa derrota", disse, sendo muito aplaudido.
De forma mais ou menos evidente, os dois autores trabalham em seus livros com panoramas políticos que escapam da partidarização e do maniqueísmo. "É um engano pensar que a política se restringe à militância partidária. Eu escolhi tratar da política pelo ponto de vista da amizade. O 'Sonâmbulo' se passa em 1966, o contexto é o da ditadura. Mas o romance não é sobre a ditadura. E sim sobre um sujeito, Jurandir, que incorpora os projetos e toma de empréstimos sonhos de outras pessoas", explicou Passos.

O papel da ficção
Scott, que se declarou fã do trabalho de Passos, retomou a questão da amizade e afirmou que não conhece nada mais político do que a relação professor e aluno.
Para o escritor, os problemas políticos do Brasil são fruto da má qualidade da educação no país. Um povo não instruído, comentou, tem pouco poder para contestar. "E aí nós enfrentamos essa situação. Sujeito é ministro e vice-governador... outro tem coragem de propor uma lei para curar...", afirmou, sem completar a fase, sendo novamente muito aplaudido.
Scott referia-se, respectivamente, a Guilherme Afif Domingos (PSD), que acumula os cargos de vice-governador de São Paulo com o de ministro da Micro e Pequena Empresa, e ao fato de a Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados, presidida pelo deputado federal Marco Feliciano (PSC-SP), ter aprovado proposta que permite a psicólogos oferecer tratamento para a homossexualidade --a chamada "cura gay". A proposta foi arquivada pela própria Câmara na última terça. Para Passos, o papel da ficção é justamente trazer esses assuntos à tona.
"A grande ficção é um exercício de imaginação e de possibilidades. Claro que há opção política e responsabilidade quando você representa a vida. A literatura tem a capacidade de chamar a atenção do leitor para questões complexas. Isso é um ato político", concluiu.

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