Marcos Losnak
De Londrina
Especial para a Folha 2
Você está começando a ler um texto sobre o novo romance de Italo Calvino (1923 - 1985), ‘‘Se um Viajante Numa Noite de Inverno’’, lançado pela Editora Companhia das Letras. Se está em pé, é melhor sentar num confortável sofá. Se você acabou de comprar o jornal na banca, melhor escolher um banco de praça. Se emprestou do vizinho, não esqueça de devolvê-lo. Se está olhando o jornal da pessoa ao lado, sentado num banco de ônibus, talvez não chegue até o final do texto, ela pode virar a página.
Num jornal há dezenas de textos, centenas, para dizer a verdade, e você foi logo escolher um que começa dizendo que você está lendo um texto de jornal. Parece idiotice. Talvez seja. O fato é que o autor do texto não sabia como começá-lo e optou por ‘‘copiar’’ o início do novo livro do escritor italiano Italo Calvino chamado ‘‘Se um Viajante Numa Noite’’. O romance começa da seguinte maneira: ‘‘Você vai começar a ler o novo romance de Italo Calvino, ‘‘Se um Viajante Numa Noite de Inverno’’. Relaxe. Concentre-se. Afaste todos os outros pensamentos. É melhor fechar a porta; do outro lado há um televisor ligado. Diga logo aos outros: ‘Não quero ver televisão! Se não ouvirem, levante a voz: ‘Estou lendo! Não quero ser perturbado! Escolha a posição mais cômoda: sentado, estendido, encolhido, deitado. Deitado de costas, de lado, de bruços. Numa poltrona, num sofá, numa cadeira de balanço, num pufe. Numa rede se tiver uma. Na cama, naturalmente, ou até debaixo das cobertas.
Em ‘‘Se Um Viajante Numa Noite de Inverno’’ a personagem principal da história é um leitor (o Leitor) que está lendo um livro chamado ‘‘Se um Viajante Numa Noite de Inverno’’. Já aqui neste texto, a personagem principal é o romance ‘‘Se Um Viajante Numa Noite de Inverno’’. Um pouco confuso?
Tudo começa quando o Leitor, o protagonista, entra numa livraria e compra o novo romance de Italo Calvino chamado ‘‘Se um Viajante Numa Noite de Inverno. Vai para casa e começa a lê-lo. Quando chega na página 30 constata que o texto volta para a página número 1. Percebe que o livro apresenta um defeito, um erro de encadernação. Fica irritado pois estava empolgado com a história. No dia seguinte volta à livraria em que comprou-o para trocá-lo.
Conversando com o funcionário da livraria, fica sabendo que várias pessoas encontraram o mesmo defeito no mesmo livro e a que a própria editora informou um outro erro: a gráfica errou de capa. Na realidade o romance que o Leitor começou a ler não é de Italo Calvino nem se chama ‘‘Se Um Viajante Numa Noite de Inverno’’. Chama-se ‘‘Fora do Povoado de Malbork’’ e é de autoria do escritor polonês Tatius Bazakbal.
Como gostou do que leu, o Leitor revolve trocar o livro de Calvino pelo de Bazakbal. Na livraria ele conhece uma simpática moça que também encontrou o mesmo defeito no livro e ao ser informado do outro defeito, também resolve abandonar ‘‘Se um Viajante Numa Noite de Verão’’ e levar para casa o romance do escritor polonês. O Leitor fica interessado na moça, a Leitora, e acaba saindo da loja com o número de seu telefone.
Ao chegar em casa, naquela noite, o Leitor abre o livro ‘‘Fora do Povoado de Malbork’’ na página 30, onde havia parado, e mergulha na leitura. Após terminar o capítulo, percebe que a história não tem nada a ver com o romance que começou a ler anteriormente, no outro livro. Percebe que não se trata de ‘‘Se um Viajante de Inverno’’ nem de ‘‘Fora do Povoado de Malbork’’. Trata-se de uma terceiro romance. No dia seguinte telefona, como uma forma de desculpa, para a Leitora e conta o fato. Ela afirma que encontrou o mesmo problema e marcam um encontro.
Esse é o início da trama de ‘‘Se um Viajante Numa Noite de Inverno’’, o protagonista deste texto. O Leitor, protagonista de ‘‘Se um Viajante Numa Noite de Inverno’’, deseja uma coisa muito simples, apenas ler um romance inteiro, mas o destino conspira contra. Quando ele se empolga com um livro, não consegue lê-lo até o final. Um livro leva a outro, e por motivos diversos não consegue chegar ao final deles. Sua aventura, absurdamente real ao lado da Leitora, é conseguir ler um romance inteiro, do começo ao fim.
Italo Calvino, com o refinado humor e a sutil ironia que é peculiar de sua literatura, aborda o do prazer do texto, os sentidos da leitura e os sentidos da escritura. Constrói 11 romances dentro de ‘‘Se um Viajante Numa Noite de Inverno’’. Cada um seguindo gêneros e estilo diferentes. O principal seria a história do Leitor em sua árdua batalha em conseguir ler um romance inteiro, além de seduzir a Leitora. Os dez secundários seriam aqueles que o Leitor começa ler e não consegue, por fatores externos, concluir. Estes dez podem ser considerados fragmentos de romances ou narrativas concluídas. Italo Calvino não considerava nenhum deles inacabado, e sim ‘‘acabado interrompido’’. Isso porque, em suas palavras, vivemos num mundo de histórias que começam e não acabam.
Se você conseguir chegar até aqui, teve a paciência de ler o texto todo, é honesto avisar que o autor do texto não sabe como terminá-lo. Poderia dizer que Calvino é um dos mais importantes escritores italianos deste século mas não nasceu na Itália, e sim em Cuba. Poderia dizer que ‘‘Se um Viajante Numa Noite de Inverno’’ foi publicado originalmente em 1979 e teve sua primeira edição brasileira em 1983 pela Editora Nova Fronteira, com outra tradução, e estava fora de catálogo há mais de dez anos. Poderia dizer que o escritor possui outras ótimas obras, entre elas ‘‘As Cidades Invisíveis’’, ‘‘Um ‘‘O Barão nas Árvores’’ e ‘‘As Cosmicômicas’’. Mas preferiu reproduzir um fragmento do romance, uma reflexão do Leitor: ‘‘Li num livro que a objetividade do pensamento pode ser expressa usando-se o verbo ‘pensar’ na terceira pessoa impessoal: em vez de dizer ‘eu penso’, diz ‘pensa’, como se diz ‘chove’. Existe pensamento no universo, e é dessa constatação que sempre devemos partir. - Poderei algum dia dizer ‘hoje escreve’ assim como se diz ‘hoje chove’, ‘hoje venta’? Apenas quando me for natural utilizar o verbo escrever no impessoal poderei esperar que através de mim se exprima algo menos limitado que a individualidade de uma única pessoa. - E para o verbo ‘ler’? Seria possível dizer ‘hoje lê’ como se diz ‘hoje chove’? Pensando bem, a leitura é um ato necessariamente individual, muito mais que escrever. Supondo-se que a escrita consiga superar a limitação do autor, ela continuará a ter sentido só quando for lida por uma única pessoa e passar pelos circuitos mentais dessa pessoa. Só a possibilidade de ser lido por determinado indivíduo prova que o que está escrito participa do poder da escrita, um poder fundado sobre algo que ultrapassa o indivíduo. O universo se expressará a si mesmo na medida em que alguém dizer: ‘Leio, logo escreve’.
•Se um Viajante Numa Noite de Inverno - de Italo Calvino, Editora Companhia das Letras, tradução de Nilson Moulin, 276 páginas, R$ 26,00.Colocar 11 romances dentro de um só. Esta é a aventura do escritor italiano Italo Calvino no livro ‘‘Se um Viajante Numa Noite de Inverno’’
ReproduçãoItalo Calvino: com o refinado humor e a sutil ironia que lhe é peculiar, aborda neste livro o do prazer do texto

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