O Teatro Macabéa escolheu um dos textos mais emblemáticos do dramaturgo Plínio Marcos, falecido no ano passado. ‘‘Balada de um Palhaço’’, escrita em 1986, pode ser interpretada como um testamento autobiográfico de um autor que caminhou à margem do teatro oficial brasileiro com posturas ideológicas e existenciais íntegras. O próprio nome do personagem principal, o clow Bobo Plin, bem como os questionamentos de seu ofício, remetem à trajetória e à figura Plínio.
‘‘Balada de um Palhaço’’ se revela um texto não datado. Seu conteúdo encontra ecos profundos dos valores da vida atual – vida esta aprisionada dentro do cárcere cotidiano da sobrevivência básica. Plínio Marcos utiliza a imagem do artista sem crise com a sua própria arte para discutir o tradicional embate de forças na guerra humana pela sobrevivência, na guerra pelo alimento do corpo e do espírito. -
A dramaturgia de ‘‘Balada de um Palhaço’’ retrata a conturbada relação entre o palhaço mambembe Bobo Plin e o dono da companhia de saltimbancos para qual trabalha, Menelão. Cansado de se apresentar mecanicamente para a alegria do público, Plin vive uma crise que abate tanto artistas quanto trabalhadores em geral. A situação insustentável em que o exercício do ofício perde a conexão com a alma de quem o executa. E quando a alma se desvincula do ofício em si, toda e qualquer animalidade corrupta é convertida em consenso em nome da sobrevivência material.
Com seu jeito extremamente cru de apresentar a realidade, Plínio Marcos trabalha em dois pontos de corrosivos em ‘‘Balada de um Palhaço’’. O primeiro ponto seria o exercício do trabalho, de uma profissão, realizado em função da satisfação das necessidades básicas de sobrevivência. Nessa armadilha da miséria, o exercício e o desenvolvimento do trabalho não participa do exercício e do desenvolvimento do espírito do homem. Em resumo, o exercício de um trabalho que não participa da construção da alma daquele que o executa pode ser considerado um sistema de escravidão. Na realidade uma auto-escravidão no pior sentido possível, a auto-escravidão que em arrebol escraviza tudo a sua volta.
O segundo ponto estaria nos abismos sociais, políticos e econômicos que impõem dificuldades doloridas para que o trabalho seja exercido de forma plena, alimentando corpo e alma de maneira ética e justa, contribuindo, ou melhor, fazendo parte, da construção de um mundo melhor. Tais abismos, por minarem a resistência dos ideais de satisfação, tanto individual como coletiva, trabalham como vírus nocivo à realização dos indivíduos enquanto seres humanos. Em outras palavras, quando o trabalho diário não participa da ‘‘construção da alma’’, a própria alma, anêmica, não participa da ‘‘construção da existência’’ através do trabalho. Nesse círculo vicioso, falsidade, corrupção e cinismo (não no sentido grego) convertem-se em bem-estar.
‘‘Balada de um Palhaço’’ oferece várias leituras talvez porque se trate de um dos textos mais aberto de Plínio Marcos (‘‘o Plin’’). Apesar da crueza que caracteriza sua dramaturgia, geralmente rotulada de ‘‘marginal’’, deixa pelo caminho algumas sutilezas marcadas a ferro e a fogo: ‘‘Por mais que as cruentas e inglórias batalhas do cotidiano tornem um homem duro ou cínico o bastante para ele permanecer indiferentes às desgraças e alegrias coletivas, sempre haverá no seu coração, por minúsculo que seja, um recanto suave onde ele guarda eco dos sons de algum momento de amor que ele viveu em sua vida.’’
Num sentido mais amplo, o dramaturgo apresenta o homem contemporâneo como um homem castrado, incapacitado de exercer seu destino de maneira plena sem precisar vender o próprio destino em nome do medo, em nome do dinheiro, a troco de falácias. Tudo isso de maneira verdadeira num livrinho de bolso, 40 páginas impressas em papel jornal, grampeado de maneira simples e vendido de ‘‘mão em mão’’ ao preço de R$ 3,00.

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