O palhaço está nu no palco
PUBLICAÇÃO
domingo, 05 de abril de 1998
Rui Werneck de Capistrano 
O Fetival de Teatro de Curitiba acabou. Caiu o pano. Ufa! A euforia da mídia sempre leva bom público aos espetáculos. O resultado é sempre comemorado com grande alarde. Vitória da arte! Aleluia para a cultura! Eu, por princípio, acho o teatro um porre. É tudo muito gritado, afetado, impostado. Uma peça em mil me toca. Tem substância, agrada, convence. Bom fui voto vencido e me levaram para ver Ela. Se você que está lendo assistiu, já seve estar rindo de mim. Mais um trouxa, E fui mesmo. Nunca tinha visto José Celso Martinez Correia, mas já tinha ouvido falar. Lido a respeito, também Ecos de São Paulo, onde tudo parece grandioso quando se lê no jornal. Mas você vai ao teatro, à exposição, ao evento e sai decepcionado em 95% dos casos. Os jornais fazem um auê por qualquer coisa. Aqui, o Festival é cantado em prosa e verso. Deve parecer um acontecimento para quem não vai comprovar de perto. Eu fui. Para começar, na Ópera de Arame o frio representa mais do que os atores. Um frio na nuca insuportável. Aí, o negócio vai enchendo devagar. Curitibano tem todo o tempo do mundo para uma peça que começa às 21h30. Logo que a gente entrou havia alguém falando num microfone. Até a gente sentar, eu não havia conseguido identificar. Impressionou foi o palco imenso e tão pobremente cenografado. Coisa de teatro escolar. Ao fundo alguém com fantasia de carnaval estava sentado. No ar, uma mistura de músicas. Salada sonora. De repente, identifiquei quem falava ao microfone. Um ser (Homem? Mulher?) com roupa diferente de nós, espectadores. Ele tentava fazer gracinhas com as pessoas que entravam. Um recurso antigo e ao mesmo tempo cruel. Pegar as pessoas desprevenidas para falar abobrinha, amplificar e fazer todos do teatro escutarem. Um cara que pegou mesmo o microfone e disse que estava indignado com o teatro vazio, sendo que os ingressos estavam esgotados. Ele não sabe que os patrocinadores pegam muitos ingressos para dar a quem quiser. A maior parte acaba no fundo do bolso do paletó ou da bolsa, sem uso. Todo mundo aceita grátis, mesmo que não goste de teatro. Mais música e, de repente, um galo canta. Pode acreditar, no fundo do teatro, em cima, um cara vestido de galo começa a cantar de galo e cantar uma canção. Ele fica lá, empoleirado, e as pessoas têm que se virar para ver. Tudo em nome da interação público/atores. O galo cantou uma canção comprida e ininteligível, descendo a escada em direção ao palco. Uma ladaínha impostada. No palco, entrou a cocoricar alto, o que se viu foi um desfile de barbaridades. O palco enorme e dois atores se esgoelando para fazer o preâmbulo da peça. A cenografia era de um mau gosto abundante. O texo, apesar de gritado ao microfone, era de uma indigência total. Dois caras perdidos numa algaravia esperando (Godot?) por Ela. A coisa se arrasta de tal maneira que a gente nem quer esperar mais nada. A cadeira começa a ficar dura, o frio aperta. A música é alta e não acrescenta nada. Depois de um século de Ela prá cá, Ela prá lá, entra...Ela. Ao som de Caetano Veloso, argh! Não sem antes mostrarem bundas pra todo lado. Um constrangimento toma conta de todo mundo. Ainda é preciso mostrar a bunda no palco? Coisa mais de Calcutá, mais Lição de Anatomia, mais idiota! Já falei que Ela entrou? Pois é, um fiasco. Alguém vestido de papa. E dá-lhe falação sem rumo, sem sentido, sem consistência nenhuma. Coisa mais xangai falar de religião. Ou, mesmo, usar a igreja católica (na figura dos seus representantes) para falar de coisas do mundo. Comecei a me sentir mal. E precisa ser tudo tão gay? Fiquei com pena daqueles caras ali em cima do palco. Mesmo torcendo, vi que dali não ia sair nada. A palma da mão suava. O texto foi se perdendo, se enronlando, se enregelando na miséria tão grande que aquele dito grande homem de teatro jogava para cima da gente. O frio lá de fora perdia feio pro gelo que estava na platéia. Em volta, pessoas foram-se levantando. E a gente ali, firme como a Ópera de Arame em cima dágua. Por um momento eu pensei que tudo aquilo eta um pesadelo. Impossível eu estar no teatro de José Celso Martinez Correia, com cem anos de palco, camarins e arredores, e achando tudo um saco imenso. Mais pessoas em volta, levantando. Licença, licença. Eu já não sabia nada o que se passava lá em cima. Eles falavam alto, brigavam, falavam alto, falavam alto. Acho que se esqueçeram que estavam com um microfone bem diante da boca. Agora, sentado aqui, vejo que deletei tudo o que eles falaram, Meu ouvido não é penico. Se teatro é coisa séria, aquilo ali era um absurdo de teatro. Um insulto a Shakespeare, Ionesco, Brecht e Dalton Trevisan. Um horror tão imenso que paralisava. Coisa de filme catástrofe. Inibia até o pensamento. Pausa: uma hora, lá no palco, não sei quem falou em solidão desses espaços infinitos e um cara, atrás de mim, emendou é uma Lei de Pascal. Pode? Eu juro que não queria que eles estivesem sofrendo tanto ali em cima. Preferia que o José Celso Martinez Correia estivesse de pantufinhas fofas, sentado num gordo pufe à beira de uma lareira. Lendo, silenciosamento, uma peça bem antiga de Tenessee Williams. Bem quieto, só o crepitar da lenha etimulando a leitura. Voltando à Ópera de Arame, a coisa estava feia. O cara lá no palco anunciou que Ela iria cantar cinco (argh!) cantos sobre sua vida e sei lá mais o quê. O primeiro canto levou mais um monte de gente embora. Nossa turma ameaçou. Mas estávamos com vergonha demais, até para sair. Mais um monte de falação e anunciaram o segundo canto. Num zas-trás!, nossa turma levantou e debandou. Fiquei com pena dos que não puderam sair, presos no ridículo daquele espetáculo. Curitibano tem disso. Pode estar odiando, mas fica. Uma coisa de educação. Mas, juro, gente, foi impossível segurar. Foi a coisa mais horrososa que já vi. Um mal estar tão grande ficou no estômago da gende que... bom, ainda bem que ainda existe o bar, uma cerveja e a inabalável arte de meter a lenha. A vingança. Meu ouvido não é penico. E o palhaço está nu no palco, digo para quem quizer ouvir. Bem baixinho.O publicitário e escritor Rui Werneck de Capistrano desce a lenha na peça Ela, de José Celso Martinez Correia
Nunca tinha
visto José Celso
Martinez Correia
Um insulto a
Shakespeare, Ionesco,
Brecht e Dalton


