O País narra-se por meio do cinema
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segunda-feira, 29 de novembro de 1999
Por Luiz Zanin Oricchio 
Brasília, 29 (AE) - Volta e meia retorna à cena a discussão meio bizantina sobre uma frase de Paulo Emílio Sales Gomes, o grande crítico do cinema nacional, e, aliás, fundador do Festival de Brasília. Segundo ele, o pior filme nacional diria mais coisas a nosso respeito que o melhor filme estrangeiro. Discutível, não é? Especialmente quando se leva em conta a versão, errada mas corrente, do mesmo aforismo: "O pior filme nacional é melhor que o melhor filme estrangeiro."
Deixando para lá essa polêmica, mesmo porque, ao contrário da obra de Paulo Emílio, ela é mais do que datada, fica um fato quando se observa o conjunto de títulos oferecido por um Festival como o de Brasília. Os filmes brasileiros, com todos os seus possíveis problemas e fraquezas, falam de algo que nenhuma outra cinematografia trata - o País em que são feitos.
Trabalhando apenas com a amostragem desta 32.ª edição do festival, vemos que a análise política brasileira passa por filmes como "O Tronco" e "A Terceira Morte de Joaquim Bolívar. O tempo colonial do País e seus habitantes originais estão em "Hans Staden". "No Coração dos Deuses", um produto infanto-juvenil que se quer alternativo, revive a época das bandeiras. A questão religiosa nacional e o sincretismo estão presentes em "Milagre em Juazeiro" e "Santo Forte". "Um Certo Dorival Caymmi" traz ao público um pouco da vida do compositor baiano, um dos mais importantes da MPB. "E Senta a Pua! relata a aventura do primeiro grupo de aviação da caça do País e sua participação na 2.ª Guerra Mundial. Mesmo "São Jerônimo", com sua vocação universal, enraíza-se profundamente no semi-árido nordestino, onde foi filmado. Trabalha com uma superposição de signos, para falar como seu diretor, fundindo o universal com o regional, pois está além de um como de outro.
No âmbito do curta-metragem, a vontade de entender o País também está presente em filmes como "Copacabana, Passadouro, Texas Hotel, Fome, Um Filme de Marcos Medeiros, História de Amor em 16 Quadros por Segundo, Uma Nação de Gente"
entre outros.
Enfim, o País narra-se por meio do cinema. Como ele se narra é outra questão. Se este ano não apareceu nenhuma produção desatinada, teratológica, como as que infestaram festivais passados, também não aconteceu a grande novidade. Aquela onda de renovação que surgiu, por exemplo, no festival de 1996, quando a força de uma nova geração explodiu na tela do Cine Brasília, em filmes como "Baile Perfumado (de Lírio Ferreira e Paulo Caldas) e "Um Céu de Estrelas (de Tata Amaral), além da confirmação de um talento já conhecido, o de Murilo Salles, em Como Nascem os Anjos". Não. O último festival dos anos 90 confirma apenas que Eduardo Coutinho e Julio Bressane são dois mestres. E isso todo mundo já sabia.
Portanto, se o cinema nacional cumpre sua função temática, fica a dever no plano estético. A competência chegou, mas a inventividade anda em baixa. É possível que a obsessão em livrar-se do estigma de primitivo, malfeito, inaudível tenha conduzido à atitude oposta, que é o cuidado publicitário, a qualidade técnica vista como valor em si e não como patamar mínimo, a busca do público médio, que conduz apenas ao público mediano.
Festivais servem para isso também: para tomar o pulso de uma cinematografia e não apenas para distribuir prêmios e dividir o mundo entre vencedores e vencidos.


