Cantor e compositor baiano analisa alguns dos temas que estão em debate no Brasil e denuncia um apartheid sociocultural
Arquivo FolhaCaetano Veloso: ‘‘Sempre fui opositor político de Antonio Carlos Magalhães na Bahia’’‘‘Os bem pensantes têm medo de áreas que possam identificá-los com a vulgaridade’’, comenta Caetano Veloso, reafirmando o interesse tropicalista - estético e político - de transitar por repertórios diferentes. Para Caetano, essa é ‘‘uma maneira de olhar o Brasil e querer enfrentar realmente a dificuldade que o Brasil apresenta’’.
Com mais de 1 milhão de cópias do CD ‘‘Prenda Minha’’ vendidas, Caetano Veloso mostra-se mais uma vez disposto a enfrentar o gosto do público que o acompanha desde os tempos do tropicalismo: a bandeira predileta do compositor no momento é atacar a tendência para o ‘‘apartheid social e cultural’’ que vê em curso nos meios letrados. Leia a seguir os principais trechos da entrevista com Caetano Veloso sobre algumas das questões em debate hoje no País.
Com a versão de ‘‘Sozinho’’ você ficou mais popular, vendeu pela primeira vez mais de 1 milhão de discos, mas no espetáculo que está em cartaz você parece aproveitar o sucesso para ‘‘iniciar’’ essa audiência nova num repertório que não é o dela. Você ‘‘quebra’’ o show em vários momentos, faz referências a temas que em princípio não estariam no horizonte de seu novo público, como, por exemplo, quando lê um trecho de seu livro, ‘‘Verdade Tropical’’, falando de Augusto de Campos e da música atonal...
Desde o tropicalismo esses deslocamentos de níveis de repertório nos interessam. Na verdade, a base do tropicalismo foi isso. Quando me perguntam se o tropicalismo morreu ou não morreu, eu sempre digo que sim e que não. Morreu porque acabou o movimento. Não morreu porque essa atitude básica veio, na verdade, se desenrolando mais amiudadamente e com mais perícia com o passar dos anos. Eu, pelo menos, nesse sentido, me tornei mais tropicalista.
Essa atitude que você atribui ao tropicalismo ainda é uma maneira de ver o Brasil?
É uma maneira de olhar o Brasil e querer enfrentar realmente a dificuldade que o Brasil apresenta. E, no Brasil, infelizmente, você logo se depara com uma tendência para o apartheid. É uma tendência que se manifesta no nosso ambiente, ou seja, no ambiente dos letrados, dos mais ou menos bem pensantes, dos que lêem e escrevem em jornais, vêem filmes ambiciosos e ouvem boa música.
A que tipo de apartheid você está se referindo? Social?
Social e cultural. Um dos aspectos centrais da atitude tropicalista é enfrentar esse problema. É transitar em repertórios diferentes e tentar fazer com que a sociedade se mova em relação a eles. É também, na medida do possível, tentar borrar eficazmente as linhas de demarcação entre esses repertórios...
Você parece estar sempre imbuído de uma ‘‘missão histórica’’: chamar a atenção para coisas duvidosas, que a gente não sabe se é gosto pessoal ou se é uma opção para provocar ruído...
É natural que essa dúvida apareça. Mas eu acho que isso é algo muito claro: gosto de axé music porque é uma coisa que eu diretamente consumo, com muito prazer, desde que vem se desenrolando. Não se trata absolutamente de escolher algo incrivelmente vulgar e jogar na cara das pessoas de uma maneira ‘‘corajosa’’, entendeu? É sobretudo uma eleição natural de uma coisa que faz parte da minha vida, do meu gosto de diversão.
Você acha, então, que existe um apartheid de setores do Sul do País contra a axé music e a Bahia?
Não é contra a Bahia e a axé music, é contra situações de que algumas pessoas têm medo. Elas temem coisas que pertençam a uma área que possa identificá-las com os vulgares, com a vulgaridade. Esse tipo de medo eu não tenho, nunca tive. É preciso entender que artistas como a Daniela Mercury sempre fizeram
parte do Carnaval da Bahia. Os shows dela são profissionalíssimos, como os dos sertanejos, como é o show de Sandy & Júnior. São espetáculos inatacáveis do ponto de vista profissional. É como se fosse um show de Las Vegas! Por que vamos ser contra? Para matar o Brasil? Vamos ser a favor do suicídio? Não entendo...
Bem, você pode não estar a fim de que esse padrão Las Vegas seja a nota dominante da média cultural brasileira.
Mas eu não estou a fim!
Tem gente que percebe isso de forma diferente...
Pode perceber de diversas outras formas, mas você não vai, de maneira nenhuma, poder passar por cima de tudo o que já falei. É uma música de Carnaval. Vocês acham que o povo é burro? Que não sabe o que é música para brincar e o que não é? As letras das marchinhas de Emilinha Borba eram igualmente ingênuas, tolas... Outro dia vi o Aldir Blanc falando numa entrevista que não dá para aguentar algumas músicas que vêm da Bahia, que parecem coisa para débil mental. Minha gente! Eu estou há 40 anos ouvindo ‘‘ala-la-ô-ôôô-ôôô’’, e todo mundo dizendo que são os clássicos do Carnaval carioca! E agora eu tenho que ouvir esse desaforo? Não dá!
A Bahia sempre participou da simbolização do Brasil, mas o filtro era o Rio.
É ainda. Mas não é só isso: tudo, na verdade, era via Rio. Era um filtro muito bom, e é bom que ele exista. Mas houve um momento em que sentíamos esse filtro como opressor. O que aparecia do filtro eram justamente esses preconceitos, que são mantenedores do apartheid. O Paulo Francis era o representante mais inteligente dessa turma, era como o chefe que se arvorava em comandar o filtro... E ele no final acabou explicitando que a questão era essa. Ou seja: aqui no Rio é que se faz a seleção, aqui é que se tem bom gosto, aqui é que temos informação do que é importante internacionalmente... Eu também me alimento e gosto muito do Rio. Mas acontece que o Brasil tem que andar para a frente. Vocês estão falando da Bahia, mas São Paulo, por exemplo, em termos de cultura de massas, passou a ter uma presença que não tinha. Uma presença que pode ser sentida de forma igualmente opressiva...
Como você está vendo as últimas movimentações de Antonio Carlos Magalhães?
Eu sempre fui, sem nenhum momento de oscilação, opositor político do Antonio Carlos Magalhães na Bahia. Opositor natural, mas sem inimizade, à maneira baiana. O Antonio Carlos é um grande talento político. Ele é desses que, quando quer fazer o negócio, o negócio é feito. Mas ele representa uma coisa que eu quero que a Bahia e o Brasil superem: a necessidade de uma figura caudilhesca. Nesse sentido, tal como é agora, não quero que a Bahia seja o filtro do Brasil. A Bahia é um lugar atrasado, no sentido de que é um lugar que precisa de um dono. Talvez outros lugares sejam assim, mas a Bahia está funcionando muito bem nesse estágio, o que significa que ela ainda está nesse estágio.

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