O país das carpideiras
As fãs e amigos mais próximos, claro, estão inconsoláveis. Leandro morreu derrubando, infelizmente, a tese de que a esperança é a última que morre e outros clichês. Resta-lhes, então, chorar a perda. Lamentar. Indagar quantas vezes for necessário: Por que? Por que? Por que? Por que?. O ídolo morreu e vai deixar saudades. Até quando? Bem, aos fãs e amigos mais próximos essa é uma pergunta senão difícil, cretina demais para ser respondida. Se depender das televisões, essa pergunta é só cretina. Ora, é preciso tirar dividendos da dor alheia até a última gota, a última lágrima.
E aí vem a pergunta: até quando as televisões vão medir a dor da perda de ídolos populares através dos picos de audiência? Até quando vão apelar diante de um fato, que certamente merece notícia, mas que não precisa de maiores floreios? A ordem parece ser uma só: arrancar lágrimas e mais lágrimas e, através de recursos sonoros e visuais, muito além do factual, transformar o Brasil num país de carpideiras. Ou seja, quem não chorar agora, já, não vai ganhar as próximas imagens comoventes - aquelas com direito a musiquinhas de fundo.
A guerra das lágrimas, no caso da morte de Leandro, foi acirrada. Desde o anúncio fatídico, as emissoras de TV vestiram seus repórteres de luto para convencer todo - TODO - o Brasil que morria não um ídolo, mas um herói. Com Ayrton Senna foi assim lembram-se? A Rede Globo, obviamente, foi a campeã de audiência ao tirar proveitos comerciais da dor de uma parcela do país que idolatrava o cantor Leandro.
Mas teve uma concorrente à altura: a Record. Que tem em seu elenco um certo senhor bigodudo execrador de almas aflitas no vídeo, o tal Ratinho que, claro, em seu programa de anteontem mostrou ainda mais suas garras oportunistas. A Record também pôs todo seu aparato a serviço da desidratação de um país através das lágrimas. As demais emissoras também enveredaram pelo mesmo caminho só que de maneira menos apelativa. Até o SBT - e isso é incrível - conseguiu fazer sua homenagem a Leandro sem maiores apelações. Mas a Dona Rede Globo e a Dona Record, sem sombra de dúvidas, são as grandes vencedoras do troféu Urubu de Ouro.
É óbvio que a morte de Leandro merecia uma cobertura ampla, detalhada, vigorosa. Era ele um ídolo da canção popular. Era preciso cobrir o velório? Era. Era preciso mostrar o desespero dos fãs? Era. Era preciso mostrar a solidariedade dos amigos para com a família? Era. Jornais mostraram tudo isso com fatos e fotos. Rádios entravam ao vivo. Tudo na medida certa, com a emoção certa.
Mas as televisões - a Rede Globo e a Record, principalmente - superaram as expectativas. Descartaram o fato de que as imagens falam por si para falarem pelas imagens. E dá-lhe musiquinhas de fundo, os efeitos especiais, frases mais marcantes, os melhores momentos. Esqueceram que esse expediente além de funesto já se tornou clichê.
Vale-tudo para exaurir as forças de espectadores mais suscetíveis para mantê-los diante da telinha. Alteraram programações, criaram especiais de última hora, chamaram o tio do sobrinho do cunhado do vizinho da parteira do primeiro incentivador do morto para dar depoimentos, enfim, fizeram um inventário da vida pessoal de Leandro em nome das lágrimas alheias.
Em outras palavras, em se tratando de coberturas de morte de celebridades nada se cria tudo se copia. Trata-se da versão nova de uma velha história em que é preciso fazer todo mundo chorar copiosamente. Ora, quem é fã guarda na memória cada detalhe de seu ídolo. Não precisa de recursos audiovisuais para sentir mais ou menos a perda.
Quem não é fã certamente lamentou a morte precoce de Leandro. Mas conseguiu ver a dor da família, dos amigos e fãs sem perder o senso crítico. Não se tornou uma carpideira. Quem teve senso crítico conseguiu ver e ouvir coisas absurdas vindas da telinha. Exemplos não faltam. Quer coisa mais feia que ver repórteres entrando no clima? Tudo bem, jornalismo também é emoção. Mas em certas horas alguns jornalistas deixaram de ser jornalistas para se tornarem atores. Atores canastrões.
E quando se lembravam que eram jornalistas engatavam comentários idiotas, óbvios, constrangedores. Até o final de semana ainda vamos ver muitas manifestações de carinho por parte das emissoras de televisão em relação a Leandro. Depois, ah, depois você liga para os 0900 da vida e responde a qualquer pergunta idiota e concorre a qualquer prêmio valioso. E não duvidem se alguma emissora, nos próximos dias, perguntar, através do 0900, se Leonardo e Daniel devem formar uma dupla. Ora, nem só de lágrimas vive uma emissora de televisão, certo?Agência Estado(Não é permitida a reprodução total ou parcial desta foto dentro ou fora do Brasil)Leonardo
chora:
emoção que
as tevês
exploraram
demoradamente
durante as
visitas ao
irmão no
hospital
(foto) e até
no velórioAntônio Mariano Júnior





