Roberto José da Silva
De Curitiba
Especial para a Folha
Os olhos de Hermeto Pascoal se olham desde que ele nasceu há 63 anos em Lagoa da Canoa, município de Arapiraca, Alagoas. O direito para o esquerdo. E vice-versa. Seria mais um albino vesgo perdido nos confins do Nordeste não tivesse vindo ao mundo com todos os canais da sensibilidade livres. Por isso, vê além da visão. Por isso, nasceu músico.
No sábado passado, poucas horas antes de um show em Curitiba, ele entrou no salão da Sociedade Vasco da Gama e pediu um canto sossegado para conversar. Apontaram para duas mesas no fundo do salão. Uma tinha toalha vermelha. A outra, amarela. Ele tirou os óculos grandes de armação marrom, passou a mão de dedos curtos nos tecidos e escolheu a amarela. Então, falou como se estivesse iluminado pela luz do sol que, lá fora, incendiava a cidade às duas da tarde.
‘‘Sou músico desde que nasci. Passei a ver e a sentir tudo assim que fui parido’’. Dona Vergelina Eulália de Oliveira, já falecida, entendeu o que isso queria dizer no dia em que, aos 69 anos, ouviu a história da boca do filho, já famoso internacionalmente. ‘‘Ela quase teve um treco. Eu estava incomodado há muito tempo porque tinha lembrança do que aconteceu quando eu nasci e não sabia como falar para ela’’.
Mas contou. Dona Vergelina só assentia com a cabeça todas as revelações. Sim, estava chovendo muito no dia em que ele nasceu. Sim, a parteira, Mãe Maria, colocou-o numa bacia grande cheia de água e com pedaços de fumo de corda. Depois, deu-lhe um gole desta água para ele beber e ficar protegido. ‘‘Me lembro das palmadinhas que a parteira me deu e eu saí fazendo música com os meus berros. Também ouvia as conversas dela, da minha mãe, do meu pai. A fala, para mim, era, é, e sempre será música’’, conta o baixinho Hermeto, como se isso fosse a coisa mais natural.
Sensitivo ele sabe que é. Uma polaquinha de 16 anos está parada na entrada do clube a uns vinte metros de distância. Hermeto a chama. ‘‘Ela quer falar comigo. Tem uma grande capacidade musical. Dá para ver’’. Aline Maria Kukolg fica espantada. Tinha arriscado passar por ali para tentar falar com o mestre que nunca tinha visto ao vivo. Estudante de canto e violão, foi convidada a sentar ao seu lado. Depois, com a felicidade irradiando no rosto meigo, disse que aprendeu uma grande lição de vida. ‘‘A humildade dele chega a espantar’’.
Para quem é reverenciado como gênio, toca com os melhores músicos do mundo e nos principais palcos do Planeta, importante mesmo é falar da felicidade de estar vivo e evoluindo. ‘‘Sou um privilegiado porque nasci e trabalho com a minha religião, que é a música’’.
Hermeto criou 6 filhos, tem 13 netos e uma bisneta. Se vivesse nos Estados Unidos ou Europa, estaria milionário. Mora em Bangu, subúrbio carioca. Dinheiro, para ele, é uma das maiores pragas da humanidade. ‘‘Pagamos para nascer, comer e morrer. O dinheiro nos cobra isso. É o máximo que devemos permitir’’, ensina.
Essa lição aprendeu cedo, apesar de o pai, Pascoal José da Costa, dono de um pequeno armazém, ter tentado lhe ensinar que, se se misturasse com os pobres da região, acabaria comendo do mesmo farelo. Antes de se mandar para o mundo, depois de tocar num forró em Palmeira dos Índios, cidade vizinha ao seu lugarejo, Hermeto Pascoal tinha aprendido a enxergar a alma e a aura das pessoas e não distingui-las socialmente. Aprendeu isso com os índios Xucurus Cariri, que ainda vivem na região, e, claro, com os bichos, seus grandes mestres musicais. ‘‘Já viu coisa mais simples e linda do que bicho? Por que a gente tem que ser tão diferente?’’, pergunta.
Hermeto sempre conversou com os animais. Principalmente os pássaros. Por ter falta de pigmentação na pele, era sempre levado para debaixo de uma árvore pelo pai, que tinha medo que ele se torrasse sob o sol inclemente. Os cantos das aves o encantaram. Começou a dialogar assobiando. Depois fez flauta com talo de mamona. ‘‘Quando saí de lá, em cada lugarejo que tocava eu tinha minha árvore preferida, onde sempre ia conversar com os meus amigos’’, revela.
As lições da mãe natureza permeiam a vida de Hermeto. Ele diz que já bebeu e fumou muito. Parou com tudo depois de ter sofrido dez anos com uma dor que, muitas vezes, o fazia dormir com as pontas dos dedos enfiadas no baço e deitado por cima de um braço só para que tudo adormecesse. Um médico americano, indicado por Miles Davis, descobriu, depois de muitos exames, que a doença era um tipo raro de esquistossomose. ‘‘Tive sorte. Tinha gente pensando que era câncer e, na época, estavam testando uma vacina para o bicho que eu tinha aqui dentro. Tomei, bocejei e nunca mais tive nada’’.
Recentemente, Jovino, músico que tocou muitos anos na banda de Hermeto e que agora vive na Suíça, visitou-o em Bangu. Estava com a mulher e o filho, um guri pálido, que era cuidado como se fosse de porcelana. ‘‘Pedi que ele deixasse o filho lá em casa e fosse para o hotel. Em dois tempos, o garoto, que antes vivia tossindo, estava corado, pois colocou o pé no chão pela primeira vez na vida, pisou em merda de vaca, tomou água gelada, jogou bola, sentiu a vida como deve ser sentida’’.
Esta formação fez de Hermeto um cruzado contra as drogas. Tanto que ele se arrepia ao ouvir alguém comentar sobre a capacidade musical de Jimi Hendrix, apontado por muitos como o maior guitarrista de todos os tempos. ‘‘Visitei o estúdio dele no ano em que ele morreu. Fiquei assustado com os desenhos que ele fazia sob efeito das drogas. O pior é que muita gente foi para o espaço tentando imitá-lo, achando que poderia fazer música, que é uma coisa natural, dopado. Tem mais: existem muitos guitarristas muito melhores que o Hendrix e não são reconhecidos. Só para ficar no Brasil e citar um exemplo, tem o Heraldo do Monte, que só toma água e toca muito mais’’.
A televisão é outro alvo do músico. Quando o convidam para algum programa, ele manda responder que não vai porque não gosta. Nem do nome. ‘‘Que visão uma pessoa tem assistindo a tanta violência e a banalização do sexo como acontece agora?’’ Hermeto revela, então, uma idéia que teve de um programa, onde não apareceria nenhum tipo de imagem. ‘‘No começo, ficaria a claridade da tela. Depois, ia tudo se apagando e o telespectador passaria a ouvir música. Acho que só assim ele poderia ter visão de alguma coisa’’.
Hermeto diz que consegue ver a aura das pessoas. No palco, vê a do público e não foram poucas as vezes em que se comunicou com alguém da platéia sem dizer uma palavra. Tem este tipo de visão ouvindo a fala das pessoas. Já fez música com o que conseguiu captar das vozes do Papa João Paulo II, de Fernando Collor de Mello e de Mário Lago.
O contrabaixista Itiberê Zwarg, que o acompanha há 23 anos, presenciou outros tipos de comunicação aparentemente inexplicáveis. Conta que, certa vez, estavam voltando a pé para o hotel numa madrugada fria em Paris quando, ao se deparar com um negro que fazia limpeza na calçada de um prédio, enfiou a mão no bolso, tirou uma nota de US$ 100 e deu ao rapaz. ‘‘O negão, que não era mendigo, nem nada, ficou tão espantado quanto eu. Mais adiante, o Hermeto virou para mim e disse: ‘‘Pode ter certeza de que ele precisava daquele dinheiro’’.
No show em Curitiba, no último dia 18, as mil pessoas que lotaram o salão da Sociedade Vasco da Gama puderam receber, através da música, toda a carga de sensibilidade que emana deste alagoano de pele e cabelos brancos. Ele tocou, gritou, comandou o público como um maestro que sabe o que é viver. Saiu do palco levitando, assim como o público. Ao chegar ao camarim, atrás do palco, os olhos brilhavam de felicidade. Um para o outro. O outro para o um. Os dois para todos.Hermeto Pascoal diz que nasceu músico, ‘‘tocou’’ com os passarinhos e considera-se um sensitivo capaz de enxergar a aura das pessoas
José SuassunaHermeto Pascoal: ‘‘Sou músico desde que nasci. Passei a ver e a sentir tudo assim que fui parido’’