O ovo da serpente
O recente episódio envolvendo a sanha assassina de um segurança contra um usuário da Biblioteca Pública do Paraná, em Curitiba, ainda que fato isolado, ou por isso mesmo, merece mais do que nossas atenções e vigilância, além da pronta intervenção da diretora Marilene Millarch, que neste campo foi curta e breve. Merece minúcias de reflexão ampla, mesmo porque, sabemos, o fascismo, mais que um ismo do varejo político, é (sinistra) pulsão humana e como tal deve ser combatido sem trégua e nem cansaço.
E tem que ao fascismo é dado estar no ônibus, no trânsito de cada dia, na feira e no supermercado, na loja de discos ou no balcão do botequim da esquina - silente, miúdo, multiplicador e multiplicante, o fascismo pode até que seja, o (mau) humor com que, acordados ao repeteco de mais um dia, vociferamos; no canto do lábio, o rancor. O fascismo é, assim, mortal como um copo de veneno, e inocente como um espirro.
George Steiner, o pensador franco-anglo-americano de muitos títulos, tentou, num ensaio sublime, mostrar de que modo a língua alemã de tantas glórias nunca mais foi a mesma depois do nazismo. Conspurcada em sua raiz pelo que há de mais hediondo no instinto humano - este gozo da morte do Outro feito o ritual macabro de uma orgia em que tramam dominadores sobre dominados, num jogo absolutamente desleal, o idioma de Goethe e de Rilke foi, segundo Steiner, irremediavelmente ferido e jamais se salvará de si mesmo.
Faz sentido a interpretação do ensaísta - praga ou não, se pensarmos uma recensão rápida do que a Alemanha deu ao mundo, depois da Segunda Guerra, em termos lítero-expressivos, para ficar só nesta área, além daqueles primeiros e pioneiros Gunllen, os irmãos Mann, Livestein, todos anteriores ao Holocausto, foi nada ou coisa nenhuma. Fatigada de sua própria vileza, ainda hoje a língua que Kafka escolheu para pre-enunciar o horror mais tórrido, é uma língua sem épicos ou os miniaturistas geniais que foram, uns e outros, dela, da língua alemã, o seu maior luxo.
Sou do tempo em que a Biblioteca Pública do Paraná não tinha equipes de segurança nem parafernália anti-furto, outra das calamidades que acometem a instituição ora dirigida pela minha competente amiga Marilene Millarch. A vida era risonha e franca - explicaria o saudosista de plantão, inconformado com os rumos deste nosso admirável e insensato mundo.
Não concordo com ele: há muito, não somos, os frequentadores da Biblioteca Pública, somente este vosso escriba, infante; o Paulo Leminski fuçando com seus já exuberantes bigodes a seção de Obras Raras; nem o Fábio Campana, então um sanguíneo líder estudantil, devorando a história da Província na chamada sessão paranaense; e claro, nem muito menos o Fernandinho Horilka, magrinho e empertigado, sendo transferido com mesa e cadeira cativas, esperneandinho horilka, de uma sala a outra, nas rearrumações da Biblioteca daqueles tempos.
É de quase sete mil pessoas a frequência diária da principal biblioteca do Estado. Não seria pouca coisa nem mesmo para a biblioteca da Universidade de Nova York, digamos, que é um pequeno grande colosso mas não registra semelhante demanda. A exaurida Biblioteca Pública do Paraná, no acanhado edifício da Cândido Lopes, no centro de Curitiba - um exemplo, aliás, da horrenda arquitetura de nossos prédios públicos, modernosos e provincianos - não comporta mais nem uma mesa. Apesar da ampliação e da reforma ocorrida ao final do governo passado, na gestão de Valéria Prochmann, a Biblioteca Pública continua com dificuldades para se colocar à altura de seus usuários.
Some-se que frequentador de biblioteca é quase sempre frequentador contumaz, o que vale dizer, um viciado em andar viajando estantes e lombadas, volumes e secções como aquele conhecido personagem de um conto árabe-alexandrino que acaba alimentando-se de papiros egípcios, ainda antes dos ratos de biblioteca, estes muito mais modernos, flagrados hoje em prosa e verso.
Quanto ao fascismo, desconheço, tanto melhor!, o registro, magro ou triunfante, de suas bibliotecas.





