No Japão, o grande aniversário celebrado em dezembro é o do imperador Akihito, no dia 23. Nesse dia é feriado. O Natal não é feriado. Mas é muito bem lembrado, nas decorações dos shoppings, principalmente. ''Merii Kurisumasu'', eles dizem, na sua quadrada pronúncia do inglês.
O Natal lá é comércio, e, exceto a minoria católica (e os 300 mil brasileiros lá residentes), ninguém associa o dia 25 de dezembro a Jesus Cristo. Não há presépios, não se troca presentes, não se janta em família. Isso é para o Ano-Novo, esta sim uma grande celebração repleta de significados, que se curte com os entes queridos.
O único simbolismo do Natal que conheci no Japão foi o Christmas Cake (Kurisumasu Keeki), um bolo de morango e chantili para ser consumido na noite do dia 24 entre os namorados. Sim, lá, a data é um programa para casais. Uma amiga japonesa explicou que é preciso reservar um quarto de hotel com meses de antecedência se a pessoa quiser garantir uma noite de Natal perfeita. Até mesmo solteiros reservam um quarto na esperança de encontrar um par a tempo de curtir aquela noite. Ela contou ainda que, não faz muito tempo, era comum chamar pejorativamente de ''Christmas Cake'' a mulher que passasse dos 25 anos solteira, em alusão ao bolo que, depois do dia 25, ninguém mais quer.
Um turista ocidental não deve entender nada ao ligar a tevê e assistir a reportagens como a que passou no canal japonês NHK: ''Está chegando o Natal e com isso o movimento em determinado templo em Tóquio tem crescido. São pessoas que vêm rezar na esperança de encontrar um par até o dia 24.''
Ajudar o próximo? Lá, a mentalidade é crescer com as próprias pernas e respeitar o que é do outro. Além do mais, eles já ajudam o próximo e o distante pagando impostos - há inclusive uma verba específica destinada ao auxílio de países pobres (eis a ''peculiaridade'' mais assombrosa deste texto.)
Isso tira um pouco da magia do amor ao próximo a que estamos habituados nesta época do ano. Mas também pode levar à seguinte reflexão: será que não somos nós, os brasileiros, que, com medo de transformar o Natal em algo meramente comercial, exageramos na solidariedade natalina? E será que o Natal não carrega outros significados igualmente profundos? A solidariedade nós colocamos em prática com boas ações. E a paz e a esperança, vão continuar sendo apenas boas intenções - totalmente subjetivas - enviadas nas mensagens de Natal?
Adriana Ito é repórter da Folha2.

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