O outro lado de 007-Daniel Craig
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 24 de outubro de 2008
Carlos Eduardo Lourenço Jorge<br> Especial para a Folha2 
A duas semanas da estréia mundial de ''Quantum of Solace'', a nova aventura de 007, o ator Daniel Craig mostra a partir de hoje no circuito local suas habilidades para além dos serviços, digamos, mais braçais prestados a sua (dele) majestade britânica - em minúsculas, e por que não? A exemplo de Sean Connery e Pearce Brosnan, que muito cedo começaram a se livrar da camisa de força do agente criado por Ian Fleming, Craig já vai gastando a sua mais sólida fortuna em libras com projetos que parecem exercer nele irresistível atração.
É o caso deste ''Reflexos da Inocência'' (veja a programação de cinema na página 2), produção inglesa recentíssima - a estréia nos EUA será em 3 de novembro - que traz Craig dublê de ator e produtor. Muito amigo do cineasta estreante Baillie Walsh, até aqui diretor de videoclipes de bandas como Massive Attack, New Order e Oasis - a trilha musical do filme atesta este viés -, Craig aqui interpreta Joe Scott, ator hollywoodiano famoso rumo à decadência por conta de escândalos com drogas e sexo.
De volta à uma cidadezinha do litoral francês para os funerais de seu melhor amigo de infância, Boots (Max Deacon), ele mergulha em profunda crise existencial habitada por culpas e outros fantasmas, e percorre a trajetória dos ''flashbacks of a fool'', as recordações de um tolo do título original. Percorrendo suas lembranças felizes e trágicas de adolescente, Joe se recorda como era tentar a afirmação num universo no qual o sexo exercia enorme fascínio. E como ocorreu sua iniciação com uma amiga mais velha de sua mãe, Evelyn (Johdi May), simultaneamente à atração experimentada pela colega de escola Ruth (Felicity Jones).
Esta visita a outras décadas - os anos 70 do glam rock, recriados com capricho - acontece na tela compassadamente, através de uma narrativa simples e que em nenhum momento se complica. Fãs de Craig-007 podem compreensivelmente não embarcar no ritmo a que o ator se submete, e que afinal constitui superada sua prova dos nove - mesmo não ocupando a trama em tempo integral, ele demonstra suficientemente que é capaz de transitar sem problemas por argumentos onde a ação interior é o único espaço a percorrer.


