O OSCAR, OPACO E GLOBALIZADO
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 26 de março de 2001
Carlos Eduardo Lourenço Jorge De Londrina Especial para a Folha 2 
Nenhuma emoção forte, nenhum brilho ofuscante, nenhuma gafe histórica ou anedota de antologia. Nem mesmo extenuante - apesar da cômica insistência do correto mestre Steve Martin com a duração do espetáculo - foi esta 73ª cerimônia de entrega do Oscar aos melhores de 2000, de acordo com os votantes da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas. Uma festa afinal burocrática, para coroar uma temporada que buscou mas não encontrou o filme de gênio, a unanimidade cada vez mais rara.
Na melhor tradição salomônica, fez-se justiça. Ou quase: um único prêmio, o de melhor filme, estaria nas mãos certas se dado a Traffic - e Hollywood reincide em seu equívoco mais frequente, dividir láureas entre filme e direção, como se um sobrevivesse sem a outra. Na sequência de vinte e sete estatuetas, muitas confirmações, quase nenhuma surpresa, charme discreto, carisma muito raro, clima bem mais para fim de festa. Como já há um bom tempo ninguém escreve canções originais para cinema com aquele old feeling, o Oscar da categoria também não empolgou e acabou nas mãos de Bob Dylan (via satélite, em turnê pela Austrália), ainda com caras e tipos de like a rolling stone, quarenta anos depois. Momento de exceção: o duo Yo-Yo Ma e Isaac Perlman num medley com os temas principais das trilhas sonoras do cinco principais concorrentes.
Na seção homenagens especiais, uma veio de encontro ao nó da questão. Cosmopolita, aventureiro, corajoso, o veterano produtor Dino de Laurentiis traçou na metade do século passado o mapa da globalização para o cinema. Sem se dar conta, claro, de forma intuitiva, empírica. Justo e estratégico, portanto, o Prêmio Irving Thalberg entregue a ele. O agradecimento, claro, veio na mesma moeda: emoções controladas dirigida para la famiglia, pragmatismo ainda afiado. E do lado genuinamente artístico, o Oscar honorário ao grande artífice de histórias para cinema, o roteirista Ernest Lehman - apresentado com elegancia e sobriedade por Julie Andrews. No geral, discretos os trajes da noite, com predominância de pretinhos entubados e sem alarde (Catherine Zeta-Jones, Sarah Jessica Parker, Wynona Ryder), um amarelo-canário torneando Renée Zellwegger, um vermelho-flamboyant atroz para Sigourney Weaver, um emaranhado de pérolas aprisionando Juliette Binoche, um Tom Cruise sem smoking e de colarinho aberto, estilo velório.
E a cantora islandesa Bjork, com o bom gosto habitual, lançou o modelito branco-emplumado, linha cisne atropelado...
Do ponto de vista estritamente de show businnes, desde os anos 70 não se observava um espírito tão globalizante como nesta distribuição de estatuetas. E pela primera vez, o público americano parece ter aderido aos filmes da mesma forma que os membros da Academia. A grande maioria dos filmes nominados reflete uma considerável abertura - principalmente na utilização de talentos e equipes não americanos. Dos cinco filmes que concorriam a Oscar máximo, apenas Erin Brokovich era produção hollywoodiana autêntica. Três foram produzidos por companhias independentes e dois dos cinco foram parcialmente financiados por fontes não americanas. A isto se deve o maior aporte tecnológico quebrando fronteiras e a dinheiro multinacional, aglutinado a partir de fontes apátridas.


