O Oscar hoje fala espanhol
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sábado, 24 de fevereiro de 2007
Carlos Eduardo Lourenço Jorge<br> Especial para a Folha 
Os Oscar desta 79 edição, que serão entregues hoje à noite em cerimônia no Teatro Kodak de Los Angeles - transmissão ao vivo na TNT (Net) a partir das 21 horas e na Rede Globo só depois do BBB -, estão espremidos entre dois opostos. Premiar ''Babel'', que larga como favorito com sete nominações, é atestado de que Hollywood precisa de estrangeiros para preservar seu frescor criativo. Já premiar ''Os Infiltrados'', que surge com cinco indicações, significa reconhecer a presença de clássicos modernos numa indústria que vive de rendas. Ou, o que é a mesma coisa, atirar confetes e serpentinas em velhas glórias da nova Hollywood.
Ambos os filmes são bons, mas discutíveis, ''Os Infiltrados'' é mais vulnerável, entre outras coisas, por ser filme de gênero. Ambos são crônicas sociais de um sistema fraturado ou pela incomunicabilidade ou pela corrupção. Denunciam, cada um a sua maneira, uma realidade que deveria mudar. Nenhum dos dois propõe soluções que não sejam ou a resignação de um abraço ou a vingança infinita. O panorama vislumbrado por ambos é desolador. Por isso, não é nada improvável que se repita a sempre conciliadora solução salomônica, inaugurada este ano no Globo de Ouro - melhor filme para ''Babel'', direção para Scorsese e filme estrangeiro (!) para Clint Eastwood.
Os hispanos, mais particularmente os mexicanos, monopolizaram nada menos que 16 nominações. São a sensação deste ano. Além das sete de IÀárritu, há outras seis para ''O Labirinto do Fauno'', de Guillermo Del Toro, e cinco para ''Filhos da Esperança'', de Alfonso Cuarón. E há ainda a espanhola Penélope Cruz, indicada a melhor atriz por ''Volver'' (que não emplacou nominação para filme estrangeiro), e o argentino Gustavo Santaolalla, pela trilha musical de ''Babel''.
No quesito melhor direção, a Academia se acha em dívida com Scorsese, depois de seis rejeições. Pesquisas, apostas e prêmios-aperitivos dão como certa sua ida ao palco. Pode afinal ter chegado a hora dele, que sempre faz ares de indiferença, mas anda meio cansado de perder. Em particular para Clint Eastwood, que está de novo no páreo com ''Cartas de Iwo Jima''. O filme, justamente por sua inteligência, não deve ganhar, mas Clint, com seu notável trabalho, não pode ser descartado somente em nome da ''reparação de uma injustiça''.
''A Rainha'' é muito britânico para o gosto de um colégio eleitoral como o da Academia, o que coloca de lado o filme e a direção de Stephen Frears. Mas há um consenso: Helen Mirren. Nesta noite, ninguém mais merece tanto as honras de um prêmio como ela. Mesmo diante de antagonistas de peso que estão na disputa.
E entre os citados pesos-pesados, um filme pequeno, mas armado com muita garra poderia repetir logo mais a atropelada final do ano passado, quando ''Crash'' superou ''Brokeback Mountain''. É o independente ''Pequena Miss Sunshine'', que conta com o apoio do Sindicato dos Atores, a maioria entre os segmentos com direito a voto. A simpatia que desperta o filme de Jonathan Dayton e Valerie Faris se deve à defesa que o filme faz dos valores da família unida, embora disfuncional, segundo aqueles padrões mais tranquilizadores de um típico produto Disney.


