O Oscar. E a cor da pele
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segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016
Carlos Eduardo Lourenço Jorge<br>Especial para a Folha 2 
Era a crônica da temática anunciada já há algum tempo: a falta de diversidade racial no Oscar, refletida com mais força na ausência absoluta, ano passado e também agora, de atores negros entre os 20 nominados em interpretação. Por sorte para a plateia do Dolby Theatre e para o público televisivo da gala do domingo, o mestre de cerimônias era o comediante negro Chris Rock. Com seu habitual humor afiado, ele soube como controlar o dragão naquilo que foi possível. E, como não podia deixar de ser, sem contentar a todos, mas pelo menos deixando a festa mais divertida e sem o assombrado ranço anual do tédio.
Ficou claro desde o primeiro momento qual seria o assunto principal. E logo o apresentador definiu o Oscar como o "White people choice awards" prêmios escolhidos pelos brancos. E emendou mortífero: "Se tivesse nominações para esta minha função eu nem sequer teria este trabalho". A partir daí, sua metralhadora giratória não parou de funcionar, mas em tom não totalmente exacerbado, criticando o racismo de Hollywood e da indústria. Aqui e ali com mais gravidade: "O que se quer é que os atores negros tenham as mesmas oportunidades que os brancos". Às vezes preferiu minimizar a polemica atual, ao sugerir que não houve nominados negros nos anos 1960 "porque tínhamos coisas mais importantes contra as quais protestar. Estávamos muito ocupados sendo agredidos e linchados para nos preocupar com quem ganhava o prêmio de melhor fotografia".
Além dos monólogos ácidos, a produção ofereceu várias montagens dos filmes nominados para discutir o tema racial, de novo preferindo um tom menos pesado. E em meio a este discurso entre sério e mais ameno contra a discriminação e o preconceito, os prêmios foram se sucedendo. Em pouco tempo, o que se esperava: "Mad Max Estrada da Fúria" foi colecionando estatuetas secundárias, mas importantes, reconhecendo o virtuosismo da parafernália visual e sonora do filme que George Miller soube orquestrar como uma delirante ópera mix de HQ, pop rock, Metal Hurlant e o que mais se queira acrescentar a este coquetel bizarro, mas imperdível. Foram seis Oscar em categorias técnicas, a produção mais premiada desta edição.
INESPERADO
Duas surpresas, pontos altos da cerimônia. O prêmio de coadjuvante masculino para Mark Rylance, o espião russo de "A Ponte dos Espiões", único reconhecimento para o belo filme de Steven Spielberg. O trabalho dele é uma minuciosa súmula das vicissitudes da profissão que floresceu nos anos 1950, e já está de volta neste início de século. A outra notícia, reservada para o último momento, foi o corajoso Oscar de melhor filme para "Spotlight Segredos Revelados" (ganhou também o prêmio de melhor roteiro), sobre a série de reportagens do jornal The Boston Globe, que em 2002 revelou ao mundo a extensão dos abusos sexuais cometidos nos Estados Unidos por uma centena de padres católicos (Leia box).
"O Regresso", claro, não sairia sem recompensas. Alejandro González Iñárritu e seu fotógrafo-fetiche, Emmanuel Lubesky, levaram, pelo segundo ano seguido, o Oscar de melhor direção e de melhor fotografia, respectivamente. E interrompendo o prolongado jejum, um ovacionado Leonardo Di Caprio recebeu seu sonhado Oscar de melhor ator.
Em três horas e meia (mais uma de tapete vermelho), o tempo precisa correr palatável. E a Academia trata sempre de buscar a agilidade, mesmo que os intervalos comerciais trabalhem contra. Este ano o espetáculo, se não foi o desejável, pelo menos não contagiou o público com o vírus da incurável sonolência. Houve diversão, às vezes mais, às vezes menos, mas de modo geral um ritmo que não comprometeu o todo. Nas premiações que encerraram a cerimônia, foi a vez de Inãrritu, Di Caprio e o pessoal de "Spotlight" darem seus recados como profissionais comprometidos com a denúncia de preconceitos e abusos, fazendo coro com o vice-presidente dos EUA, Joe Biden, que compareceu à gala para reivindicar "mudanças na cultura", referindo-se ao combate a abusos sexuais.
Nesta linha de engajamento reivindicatório contra os abusos, Lady Gala e sua musica "Till Happens to You" levaram a plateia às lagrimas. No segmento musical, destaque para o primeiro Oscar dado a Ennio Morricone, pela trilha de "Os Oito Odiados", de Quentin Tarantino. Pena que o maestro italiano receba seu prêmio por uma partitura requentada de seus westerns, enquanto a obra-prima composta para "Cinema Paradiso" tenha saído de mãos abanando.




