Fãs de carteirinha do visionário britânico H.G. Wells, arrepiai-vos: um insignificante ramo familiar contemporâneo atravessou o fascinante caminho da fantasia premonitória, pavimentado há mais de um século com engenho e arte pelo gênio ancestral, e deu à luz uma contrafação, um medíocre ‘‘remake’’ de ‘‘A Máquina do Tempo’’ (veja a programação de cinema nesta página), título homônimo do clássico dirigido em 1960 pelo mago George Pal. O peso da herança, materializado em fracasso, acabou levando o diretor Simon Wells, bisneto do escritor ilustre, a um processo de estresse, sendo inclusive substituído na direção de algumas sequências pelo diretor Gore Verbinski, que recentemente assinou ‘‘A Mexicana’’ – o que também não é nenhuma recomendação.
Na Nova York do século 19, o Dr. Alexander Hartdegen (um cadavérico Guy Pearce) é tão obcecado pelas pesquisas sobre a possibilidade de viajar no tempo que mal presta atenção ao romance com Emma (Sienna Guillory). E uma tragédia acaba acontecendo com a moça. Abalado, Alex mergulha ainda mais no trabalho. Talvez aperfeiçoando sua máquina do tempo, ele possa voltar ao passado e alterar o que ocorreu. Quatro anos mais tarde, está pronto. Tudo ajustado para voltar, Alex tem esperança de uma segunda chance com Emma. Mas seus esforços para prevenir o acidente com a namorada falham, e ele decide dar um pulo no futuro para tentar saber por que não foi possível mudar o passado. Projetado 800 mil anos adiante, Alex se defronta com um mundo pós-apocalíptico habitado por duas espécies de uma cadeia alimentar: os que comem e os que são devorados.
De um lado, os Eloi, povo gentil que por razões de segurança vive de várias maneiras acima do chão, e de outro os Morlock, criaturas bestiais e sempre famintas que habitam os subterrâneos e estão sempre à caça de saborosos Eloi para o jantar – um desses, Mara (Samantha Mumba) é alvo também do interesse de Alex. Um dos Morlock mais proeminentes é interpretado por Jeremy Irons, presença constrangedora que mais parece um envelhecido integrante do grupo ABBA.
Logo, qualquer dúvida e expectativa otimista são dissipadas e estamos diante da insipidez integral recheada de efeitos especiais extremados, trivialidade generalizada e atuações esgarçadas. O filme padece de todos os males mais comuns do pior cinema fast food etiquetado em Hollywood. A saber, a citada hipertrofia dos efeitos especiais como recurso para compensar um roteiro atrofiado – incapaz de dar consistência a questões como civilização e barbárie – e entre estes dois fogos, atores se debatendo em rota livre de colisão.
Visto assim, e pensando bem, o bisneto Simon Wells até que não se saiu de todo mal: honrando a memória do bisavô, ele consegue durante 96 minutos demonstrar na prática a idéia de que não apenas a matéria pode ser invisível, como audaciosamente Herbert George Wells postulou em novela de 1897, mas também o talento.

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