O olho do furacão
PUBLICAÇÃO
domingo, 06 de dezembro de 2015
Marian Trigueiros<br>Reportagem Local 
Ânus. Ou apenas cu, no linguajar popular. Sua simples pronúncia já é carregada de tabus e conotações negativas, caso não seja em situação "oportuna" (e isso varia conforme o ambiente social). No campo da pornografia é altamente explorado e aceito com certa tranquilidade, afinal, vale tudo, ou quase tudo, ainda que grande parte das pessoas não assuma. Pode ser um fetiche, um prazer. Mas abafado, por favor, principalmente na área feminina. Uma coisa é certa: queira ou não, todos têm um ânus - no qual me incluo - a não ser por algum problema de má formação, ainda que relatos científicos não sejam costumeiros. Há quem defenda, no entanto, que seja assunto íntimo, não precisa e não deve ser escancarado. Até mesmo por isso, o tema cause tanto desconforto quando mostrado, falado e retratado. Na arte em geral, então, é ainda mais espinhoso, um verdadeiro campo de batalha com bombardeios de todos os lados.
O assunto veio com força total há poucos dias com a apresentação da peça teatral "Macaquinhos". Resumidamente, uma performance em que os integrantes nus exploram e interagem com os ânus uns dos outros ao vivo. Apesar de ter estreado oficialmente em 2011, a peça causou um tumulto sem precedentes na internet por causa de uma apresentação recente em Teresina. Na sinopse, a descrição "desbunde, deboche, degredo, ingênuo, vulgar, arcaico, frágil, íntimo e comum, o espetáculo busca construir uma fisicalidade a partir do ânus".
Ainda que tenha causado alvoroço, definitivamente, o assunto não é novo. Mas, sempre que vem à tona, a novela se repete. Dentre os trabalhos mais atuais, podemos citar a capa do álbum "Todos os Olhos", do cantor Tom Zé, estampada com a foto de um ânus com uma bolinha de gude. Fotos de uma suposta exposição na Europa com imagens dos mais variados tipos de ânus, ainda que a autenticidade não tenha sido confirmada, também rodaram as redes sociais nos últimos meses.
Querendo ou não, a discussão sobre o "tal orifício" ressuscitou e suscitou debates. "Isso não é arte", "desnecessário e repugnante", "intenso e comovente", "arte nua e crua" foram alguns dos comentários que rechearam as páginas da internet. "Faz parte da vida do artista tratar todos os assuntos de forma natural. O cu, assim como a vagina, o pênis, e até mesmo a boca, são sagrados da mesma maneira. E o corpo, as pessoas, sempre estiveram presente nos meus trabalhos. Nunca houve a intenção de chocar ninguém com a peça, tampouco levantar uma bandeira. Macaquinhos não é a exploração do cu meramente por si só; busca tratar de forma delicada como vemos as questões íntimas do corpo e a relação entre a nossa consciência e o processo de colonização, principalmente dessa zona erógena", conta Mavi Veloso, um dos idealizadores da performance.
O artista não participou da performance da peça, pois está em Bruxelas, na Bélgica, mas comentou que as reações já eram esperadas, visto o início conturbado que a primeira apresentação gerou, em 2011. "Foi um ensaio aberto e muito impactante; um choque para quem assistiu. Ficamos nervosos com a repercussão e demos um tempo. Sabíamos que mostrar e falar sobre o cu seria complicado. E foi. Mas sempre tivemos claro em mente a importância de trazer o assunto a público e por isso decidimos lidar com ele de frente. Porém, mais que isso: causou a discussão, principalmente, sobre o porquê das pessoas se sentirem tão culpadas e incomodadas."
Veloso é graduado em Educação Artística - Licenciatura em Arte Visual pela Universidade Estadual de Londrina (UEL) e foi um dos primeiros integrantes do Coletivo Manada, grupo coordenado pela professora e artista Fernanda Magalhães que desenvolvia performances, instalações, projeções e intervenções interativas.


