O olho de vidro de Niemeyer
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sexta-feira, 13 de setembro de 2002
Katia Michelle<br> Equipe da Folha 
Curitiba - O olho de vidro não é azul, como mostra a maquete. Mas esse é único detalhe que deve destoar da proposta inicial do Novo Museu, conforme promete o ''dono da obra'' Oscar Niemeyer. O arquiteto de 95 anos assina tanto o projeto original do Edifício Castello Branco, quanto a reforma do prédio, cujas obras estão a todo vapor, no Centro Cívico, em Curitiba. A correria se justifica para que a obra menina dos olhos do governador Jaime Lerner (PFL) seja entregue até o final de seu mandato, em 31 de dezembro. A previsão é que o Novo Museu seja inaugurado pouco mais de um mês antes, no dia 21 de novembro.
Niemeyer falou à Folha, por telefone, e afirmou que a reforma do prédio é um caso especial na história da arquitetura brasileira. ''Nunca uma obra correu tão bem'', entusiasma-se. Para garantir que tudo saia conforme o planejado ele conta com dois braços direitos: o arquiteto Osvaldo Cintra, que se mudou para Curitiba para acompanhar integralmente a reforma do prédio e o arquiteto paulista Marcelo Ferraz, responsável pela adequação do prédio original às novas funções de museu e que visita o canteiro de obras a cada semana. Além disso, Niemeyer acompanha virtualmente o andamento da obra por meio de conferências eletrônicas.
O prédio que está se transformando numa das mais modernas construções de Curitiba foi desenhado por Niemeyer no final da década de 60 para ser o Instituto de Educação, função que, aliás, nunca exerceu. Foi a única obra que o arquiteto que projetou Brasília aceitou modificar. Há mais ou menos dois anos, ele atendeu a um convite pessoal do governador e pôs mãos à obra. ''Eu queria subir o prédio e para isso escolhi o olho suspenso, que cria uma surpresa em quem vê'', diz o arquiteto.
O ''olho'' em questão é uma grande cúpula de vidro, não azul conforme vem sendo mostrado, mas de uma cor cinza, uma espécie de fumê capaz de proteger muito bem o salão que vai estar dentro dele, como explica Marcelo Ferraz. Na função de adaptar a obra às funções técnicas que um museu exige, Ferraz explica que essa grande sala de exposição, com quase 2 mil metros quadrados e 20 metros de altura na parte central, recebeu um suporte especial. Trata-se de uma parede dupla de vidro, com uma espécie de colméia no meio e que promete barrar, além do sol, o temor que alguns artistas demostraram ao saber que a transparência poderia prejudicar as obras expostas.
Ferraz descarta essa possibilidade. ''As obras vão estar bem protegidas, tanto as que estarão expostas quanto as do acervo.'' Ele ressalta que o prédio oferece um espaço apropriado para a reserva técnica, capaz de receber tanto o acervo paranaense quanto acervos particulares. ''O museu vai ter capacidade para oferecer o serviço de restauração'', aconselha sem saber da precariedade dos profissionais área no Paraná (vale lembrar que o único curso de museologia que o Estado oferecia foi extinto há mais de cinco anos).
Mas se depender da proposta, a intenção é das melhores. O subsolo, que vai abrigar a reserva técnica dividida por módulos foi totalmente impermeabilizado. Nas salas de exposição e acervo vai ser instalado um sistema computadorizado para medir a temperatura do ar e a umidade. O sistema vai funcionar por ambientes, o que permite supervisionar cada ponto do museu.
Ferraz, que se prepara para supervisionar as obras do único Museu de Rodin no Brasil, a ser instalado na Bahia com 62 obras originais do artista, diz que a tecnologia do museu em Curitiba vai permitir receber exposições internacionais. ''As instalações são fantásticas. Vai ser o único museu brasileiro com 40% de sua área destinada à exposição'', diz explicando que esse é um índice alto. ''Geralmente os museus destinam apenas 10% à exposição.''
Para inauguração está sendo planejada uma exposição chamada provisoriamente de ''Matéria Prima da Arte Brasileira'', que será dividida em três segmentos: ''Bruto'', com curadoria de Frederico de Moraes; ''Alinhado'', com curadoria de Lisete Lagnado e ''Energia'', com curadoria de Agnaldo Farias. Este último assinou a curadoria geral do Faxinal das Artes, evento que reuniu uma centena de artistas plásticos brasileiros em Faxinal do Céu com um dos objetivos voltados à conquista de acervo para o Novo Museu. Farias também foi o responsável pela representação brasileira da 25 Bienal de São Paulo.
Ele admite que o tema da exposição de inauguração é bastante amplo, mas já adianta alguns nomes que estão sendo cotados para a mostra, entre eles Carmela Gross, Cido Meireles e Valtécio Caldas. ''Só estou dependendo da definição do espaço para definir os nomes. Me ofereceram 700 m2, mas preciso de uma área maior'', explica.
O curador esteve na semana passada em Curitiba para mais uma das reuniões que estão sendo promovidas pela Secretaria da Cultura para definir quais os trabalhos produzidos no evento vão ganhar as paredes do museu. Na ocasião, pediu para conhecer as obras do Novo Museu. ''É uma coisa primorosa e parece ser muito funcional''. Para ele, estava faltando ao Estado, um espaço capacitado para receber artistas internacionais. ''O Museu de Arte do Paraná é belíssimo, mas não tem capacidade para abrigar grandes obras. O mesmo acontece com o Solar do Barão'', exemplifica.
As reformas do Edifício Castello Branco foram avaliadas em cerca R$ 15 milhões. O projeto integra o Programa de Valorização Cultural do Estado do Paraná e os recursos foram obtidos pelo governo por meio da Secretaria do Desenvolvimento Urbano (Sedu), junto ao Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID). Para quem não se lembra o complexo horizontal abrigava diversas secretarias estaduais, que foram trasnferidas para a antiga sede do Conglomerado Banestado, no bairro Santa Cândida.
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