Rodrigo Teixeira
TV Press
Refletir o desempenho dos meios de comunicação tem sido a missão de Alberto Dines em quase cinco décadas de profissão. Aos 67 anos, o jornalista carioca continua um questionador inveterado no ‘‘Observatório da Imprensa’’. O programa - transmitido às terças, às 22h30 na Rede Cultura e Rede Pública de Televisão - é a primeira produção brasileira em canal aberto que se dedica a analisar o comportamento de jornais, revistas e redes de televisão. Desde maio de 98 no ar, o ‘‘Observatório da Imprensa’’ é uma versão televisiva do site que funciona há três anos na Internet em www.uol.com.br/observatório, e que abre espaço para debater a atuação da mídia. ‘‘O nosso objetivo é fazer com que as pessoas comecem a olhar mais criticamente para a programação da tev꒒, avisa Dines.
Para o jornalista, o ‘‘Observatório da Imprensa’’ também serve de tribuna para desenvolver projetos que tenham relação com a mídia. A auto-regulamentação das emissoras proposta pelo Secretário dos Direitos Humanos, José Gregori, por exemplo, foi lançada no começo do ano no programa e deve ser concluída hoje. ‘‘Para participar, os jornalistas precisam ter coragem para criticar a imprensa’’, garante Dines, que exerce a função de âncora e editor responsável do ‘‘Observatório da Imprensa’’. A seguir, leia trechos da entrevista com Alberto Dines.
Você concorda que uma auto-regulamentação pode resultar numa melhora da programação das emissoras?
Tudo que puder representar algum tipo de vigilância não censória é bem-vindo. Seja a auto-regulamentação das emissoras, a presença de ombudsman nas tevês, programas como o ‘‘Observatório da Imprensa’’ ou entidades civis, como a TVer, em São Paulo. É preciso, evidentemente, um acompanhamento do poder público. Não do governo. As emissoras precisam se convencer que podem fazer uma programação melhor sem deixar de ganhar dinheiro. Obter lucro faz parte do negócio. Mas entre o Jô Soares e o Gugu Liberato, evidentemente que o Jô é um gênio e é por aí que elas teriam de optar. Façam programas populares, mas com limites. Não pode-se fazer qualquer coisa. Até mesmo as novelas da Globo. Na atual das 19 horas, que é um horário que as crianças assistem, tenho visto cenas de sexo de alto erotismo, o que é inconcebível. Não sou pudico. Querem fazer sexo explícito façam, mas em horário apropriado. Às 19 horas é criminoso. Isso degrada a sociedade.
Esta postura crítica não cria problemas para você com os colegas de profissão?
Claro. Tem pessoas que não falam comigo desde a década de 70, quando assinava a coluna ‘‘Jornal dos Jornais’’, na ‘‘Folha de S. Paulo’’, onde criticava a própria imprensa. O jornal ‘‘Folha de S. Paulo’’, inclusive, me demitiu em março. Eles disseram que alimentava divergências com o jornal porque criticava a ‘‘Folha’’ na minha coluna. Mas quando me contrataram, era para isso. Já no ‘‘Jornal do Brasil’’, em 74, foi um problema político. Nesta época, todas as portas se fecharam para mim. Ninguém me deu emprego e disseram que era melhor ir embora. Simplesmente estava enfrentando a censura e isso incomodou muito algumas pessoas e houve pressões. Sei que fui demitido por indisciplina estando no jornal há 12 anos.
Existem profissionais que se negam a ir ao ‘‘Observatório’’?
Muitos. Primeiro tem os veículos que critiquei. Por isso, boicotam. São dois: ‘‘Folha de S. Paulo’’ e ‘‘Veja’’. Estes não aparecem, pois há uma ordem interna. Se o convidado pensa em puxar o saco do empresariado e da mídia, não adianta. Para participar do ‘‘Observatório’’, tem de ser alguém com visão crítica, com coragem para tomar algumas posições e dizer: ‘‘olha, a imprensa está baixando o nível’’.
Você acredita que um programa como o ‘‘Observatório da Imprensa’’ possa ter liberdade em uma emissora aberta?
O ideal é que seja em uma tevê pública. Nos Estados Unidos recentemente estreou um programa no canal público de Nova York nos moldes do nosso. Mas não é ao vivo. Em uma rede pública você está mais livre para discutir a mídia. O ‘‘N de Notícias’’, da Globo News, melhorou. Já tem reportagens e fazem links com outras praças, embora seja gravado. A Globo está dando uma abertura na formatação, mas ainda controla o conteúdo. O Gabriel Priolli comanda o ‘‘Imprensa na TV’’ no Canal 21, da Band, às 22h30, aos domingos. Mas ele disse que não tem a liberdade que tenho. Mas estão pipocando programas como o nosso e isto é uma vitória de uma consciência que começa a tomar conta do País. A mídia precisa ser discutida. Sempre digo: ‘‘gente, nós não estamos aí para discutir o mérito das questões. Estamos discutindo a forma como a imprensa cobre estas questões’’. O nosso negócio é mostrar que a mídia e as emissoras estão apostando no lucro e esquecendo das suas funções sociais dentro de uma democracia.
Você concorda com a teoria de que os programas populares conseguem boa audiência porque o Plano Real fez emergir um espectador com menor poder aquisitivo?
Essa é uma explicação sociológica, mas não é a solução. As pessoas que passaram a comprar aparelhos de tevê querem melhorar de vida. Inclusive culturalmente. É preciso dar a quem está emergindo socialmente outras coisas que não sejam Ratinho ou Xuxa. Mas grande parte da culpa da degradação da televisão não é só das emissoras. É dos anunciantes e das agências de propaganda. Querem pegar o que tem mais audiência e não analisam o conteúdo e os efeitos colaterais. Assim eles reforçam uma programação que nivela por baixo. Isso é extremamente perigoso.Programa de Alberto Dines, que vai ao ar às terças-feiras, é o único da TV dedicado a analisar a mídia
Jorge Rodrigues Jorge/Carta Z NotíciasAlberto Dines: ‘‘É preciso dar a quem está emergindo socialmente outras coisas que não sejam Ratinho ou Xuxa’’

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