O olhar analítico de Wisnik
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 05 de janeiro de 2005
Antonio Gonçalves Filho<br> Agência Estado 
Autor de ensaios antológicos sobre Guimarães Rosa e Machado de Assis, o professor de literatura, ensaísta e compositor José Miguel Wisnik está lançando o livro ''Sem Receita'', em que a fórmula ''três em um'' fornece ao leitor farto prato de reflexão em diferentes áreas (literatura, música e cinema). Ao lado dos ensaios sobre o cruzamento entre cultura erudita e popular, o livro traz as letras das canções de Wisnik (gravadas por Djavan, entre outros) e um CD com a trilha que compôs para o balé ''Nazareth'', do grupo Corpo. A seguir os principais trechos da entrevista com José Miguel Wisnik.
Em ''Machado Maxixe'', seu ensaio sobre Machado de Assis, você fala de um problema insolúvel dos músicos, divididos entre o erudito e o popular. O ''efeito cruzado'' preconizado por Machado, ou seja, o cruzamento entre os dois gêneros, é a solução para esse dilema?
Nos anos 70 e 80 , isso se tornou evidente. O mercado de disco foi ocupado por alguns compositores formados pela Bossa Nova e que tinham uma ligação direta com a literatura, como Chico Buarque, que queria ser teatrólogo e virou romancista, Caetano, que escreveria um livro de ensaios, ou poetas que atuavam, como Wally Salomão. Depois vieram Jorge Mautner, Antonio Cícero, Arnaldo Antunes. Hoje em dia há um remanejamento desse espaço. O dominante não é essa produção, que continua muito ativa e tendo um papel, o que diferencia muito a música brasileira de outras pela permeabilidade, pelo cruzamento da música de entretenimento com a de reflexão. A essa faixa reservada pertence Guinga, por exemplo. Já Arnaldo Antunes é ambíguo. Ele tem o lado tribalista, das vendagens milionárias, e, ao mesmo tempo, um trabalho sem essa destinação. É um elo importante. Tenho uma música, ''Pérolas aos Poucos'', gravada por Djavan, que se refere a essa faixa e foi escolhida para dialogar com sucessos no show dele. Isso não é comum em outras partes do mundo.
O empobrecimento de cidades como o Rio de Janeiro tem afetado cada vez mais esse diálogo com o erudito, considerando o papel hegemônico da música popular, você não acha?
Não sei dizer, não conheço suficiente o que está acontecendo lá. Acho que novas gerações ligadas em nossa música, a minha e a do Guinga, têm encontrado dificuldades para aparecer. Quem faz música diretamente vinculada ao mercado de massa tem aparecido. Os outros, não. Hermano Viana me diz que estão acontecendo coisas em vários lugares, pessoas experimentando os mais diferentes gêneros no Norte e Nordeste, mas não tenho acompanhado por causa da minha atividade como professor.
Por falar nisso, você está escrevendo um livro sobre as relações entre futebol e literatura. Quando será publicado?
Espero que no primeiro semestre do ano que vem. O título é ''Veneno Remédio: o Futebol e o Brasil''. Há uma introdução sobre a singularidade do futebol brasileiro a partir de um ensaio escrito por Pasolini sobre futebol de prosa e futebol de poesia. Depois tem uma espécie de história da formação do futebol, pensado como linguagem. Todos os elementos sociológicos aparecem em função do entendimento semiótico e estético. Há um outro capítulo sobre os momentos cruciais do futebol brasileiro e sua ligação com a música e a literatura.
Um dos quatro ensaios literários de seu livro fala de um conto de Rosa, ''O Famigerado'', em que o tema é justamente o confronto do hiperletrado com o não-letrado. Qual seria, hoje, o papel do literato no Brasil?
O escritor, seja ficcionista, poeta ou ensaísta, é um pescador que intervém na vida através de mergulhos. Ele pede ao leitor uma relação introspectiva, silenciosa, solitária, uma relação difícil no mundo contemporâneo barulhento, de sinais cruzados e interrupções a toda hora. Isso dificulta o trabalho de intervenção do escritor, sendo que, no Brasil, a literatura sempre procurou seu lugar com certo heroísmo. Escrever sobre as relações entre literatura e música abre uma ponte para a primeira, mas não se trata de uma transferência. A canção não substitui a literatura. Meu trabalho musical se destina a chamar a atenção para a literatura.
Serviço
Livro ''Sem Receita'', de José Miguel Wisnik. Editora Publifolha. 536 páginas. R$ 69,00.


