O ocaso da estrela
PUBLICAÇÃO
domingo, 19 de janeiro de 1997
Ranulfo Pedreiro 
Arquivo FolhaCelina Alonso tem guardada a saia usada por Elis em seu último reveillon. A cantora gostava de receber os amigos com muita festa
Os músicos caprichavam nos acordes de Marambaia, enquanto Elis Regina e César Camargo Mariano se encontravam na frente para ensaiar alguns passos de dança. O público admirava o momento romântico do casal, mas, quem estava nos bastidores, percebia claramente os beliscões que a cantora impiedosamente aplicava no marido. Era um jeito meio moleque que Elis Regina tinha de se vingar das discussões amorosas.
A cena se repetia em Tatuagem, quando a cantora se dirigia até o teclado e passava, fagueira, as mãos no cabelo do arranjador. O público adorava. Mas, dos bastidores, dolorosos beliscões voltavam a atingir visivelmente o músico, que ainda era obrigado a fazer cara de simpático.
Antes que se comece a imaginar que Elis Regina era uma verdadeira peste, é bom lembrar que a situação permitia o inverso: quando o casal estava bem, os carinhos trocados no palco eram verdadeiros.
A cantora virava uma fera quando se envolvia em discussões, é verdade, mas também era capaz de tiradas extremamente bem-humoradas. Numa dessas ocasiões, Elis Regina havia discutido com a mãe de César Camargo Mariano. Como estava prestes a receber vários jornalistas e artistas para uma reunião, Elis transformou sua irritação em sátira.
Os convidados deram de cara com uma boneca gorda, utilizada durante os espetáculos do LP Falso Brilhante, acomodada no sofá com todas as jóias da cantora. O exagero fez com que a boneca parecesse uma típica perua de festa. Enquanto conversava com os convidados, Elis se virava para o brinquedo e fazia comentários divertidos, como se ele fosse sua sogra. Em seguida caía na gargalhada. A reunião seguiu assim, com Elis puxando o braço da boneca, falando alto e brincando muito, enquanto os convidados se matavam de rir.
Nesses momentos a cantora mostrava um carisma insuperável, que envolvia todos os presentes, relembra Celina Alonso Az, jornalista da Folha de Londrina em Maringá. Celina conviveu com Elis por mais de dois anos, e trabalhou como secretária particular da cantora durante os meses que antecederam a sua morte.
Hoje, quando completam-se 15 anos da morte da cantora, Celina prefere se lembrar de fatos alegres, em vez de se embrenhar nos comentários melancólicos que geralmente são elaborados nestes momentos.
Elis Regina era insegura e mandona ao mesmo tempo. Certa vez ela foi comparada ao mercúrio, elemento que se recompõe e se desmancha de acordo com o ambiente, e é exatamente assim que me lembro dela, afirma a jornalista.
Mesmo com as variações de temperamento pelas quais passava, a cantora permanecia com total domínio de palco. Na época em que estava se separando do César Camargo, Elis desatava a chorar nos camarins. Quando ela pisava no palco, entretanto, a voz embargada desaparecia. Eu não sei onde ia parar todo aquele sentimento, mas ela se transformava e dava um verdadeiro show, recorda-se Celina.
O temperamento inconstante da cantora era visível. Quando ficava muito nervosa, Elis Regina perdia o controle sobre o estrabismo que a acompanhava desde a infância. Era só vê-la com os olhinhos virados que já sabíamos que era melhor sair de perto.
Em casaA intérprete era metódica no lar: cuidava com esmero dos filhos, da contabilidade da casa e da cozinha. Nunca vou esquecer o camarão na moranga que ela fazia, era maravilhoso. Elis gostava muito de cozinhar e de reunir pessoas em sua casa, afirma Celina Alonso.
Nessas reuniões, as tradições gaúchas - a cantora nasceu no Rio Grande do Sul - não eram esquecidas. Mesmo morando em apartamento, Elis Regina improvisava uma churrasqueira no tanque da área de serviço e empaturrava seus convidados. Depois acabava dormindo no tapete da sala, relaxada pela companhia.
A gaúcha não cantarolava em casa, mas ouvia muita música. Poucos dias antes de morrer, Elis estava impressionada com Herbie Hancock e Aretha Franklin. Quem conta é Celina: Ela só cantava quando imitava alguém, geralmente Cauby Peixoto, Maysa, Ângela Maria, Isaurinha Garcia, Dalva de Oliveira ou Elza Soares. Era uma de suas brincadeiras prediletas.
A cantora virava
uma fera quando
se envolvia
em discussõesOutra de suas diversões eram verdadeiros papos-furados. Num encontro de Elis Regina com Vinícius de Moraes, Celina esticou os ouvidos para entender os comentários das duas personalidades. O assunto não podia ser mais esdrúxulo: tipos e formatos de... cocô.
Completamente o oposto da situação em que a cantora vivia dias antes de morrer. Recém-separada de César Camargo Mariano, Elis namorava o advogado Samuel Mac Dowell. Os dois estavam se preparando para morar juntos, e, segundo Celina, Elis estava insegura com a decisão. A cantora sofria ainda pressões da gravadora e tinha que terminar um disco para cumprir o contrato. O tempo estava passando, a intérprete estava prestes a entrar no estúdio e o repertório ainda não estava selecionado. Além disso, depois de nove anos, este seria o primeiro trabalho de Elis Regina sem o apoio dos teclados e dos arranjos de César Camargo Mariano.
A cantora realmente não estava num bom momento. No dia da descoberta do corpo - 19 de janeiro de 1982 - Celina estava ao lado de Samuel Mac Dowell, que arrombou a porta do apartamento. Elis estava caída no chão do quarto. Celina ajudou a carregar o corpo até o interior de um táxi, junto com Mac Dowell, e se dirigiram para o Hospital das Clínicas. Mas essa é uma das lembranças que Celina prefere ignorar. Quinze anos após a morte de Elis Regina, a jornalista prefere lembrar do último Natal que as duas passaram juntas. A cantora não perdeu tempo para pregar uma peça: confeccionou uma enorme bolsa, que encheu de presentes. Perto da meia-noite, ela apareceu na sala cantando Jingle Bell, enquanto pulava pelo apartamento com o estranho adereço na cabeça. Assim era Elis, de alto astral.


