O obscuro mundo do autismo
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 14 de junho de 2010
Felipe Branco<br>Cruz Agência Estado 
Atualmente, há no mundo cerca de 70 milhões de autistas. Há 20 anos, eram cerca de 12,5 milhões. Estaríamos vivendo uma epidemia da doença? Para o antropólogo americano Roy Grinker, não é esse o caso. ''A questão é que o autismo está sendo diagnosticado com mais frequência do que antes. Ou seja, o que mudou foi a maneira como identificamos a doença'', diz Grinker, autor do livro ''Autismo - Um Mundo Obscuro e Conturbado''. A obra chega ao mercado brasileiro este mês, lançada pela editora Larousse.
''No passado, só um pequeno grupo de pessoas eram consideradas autistas. Hoje, o termo denota uma enorme gama de diferentes indivíduos'', explica. Dentro desse espectro, estão desde portadores de grave retardo mental, incapazes de falar, até um matemático ou físico, mas socialmente isolado. É o que acontece no filme ''Rain Man'', no qual o ator Dustin Hoffman interpreta um autista com incrível capacidade de raciocínio matemático, mas que não consegue viver em sociedade.
''Essas pessoas podem ser completamente não-verbais ou até profissionais de grande sucesso, que socialmente são considerados estranhos, podendo se casar, ter filhos e ganhar dinheiro normalmente. Alguns pesquisadores já sugerem que não existe um tipo único, mas vários distúrbios'', diz.
Grinker passou a se interessar pelo tema a partir de 1994, quando sua filha Isabel nasceu portadora de autismo. O autor afirma que se ela tivesse nascido dez anos depois, ele e sua mulher talvez não tivessem se sentido desamparados com relação ao tema, devido às poucas informações disponíveis na época. ''Criar uma criança autista é um desafio e requer um trabalho em conjunto. Há, no entanto, recompensas incríveis, como presenciar o momento em que ela falou a sua primeira frase'', conta. ''Sou muito orgulhoso da minha filha, que é uma criança típica, mas se desenvolve à sua maneira.'' Numa parte do livro, o autor faz um desabafo: ''Invejo o pai cujo filho é hoje diagnosticado como autista. Em 1994, nosso sistema educacional tratava o autista como se fosse de outro planeta.''
Mas a situação já foi pior. Na Idade Média, os autistas eram vistos como possuídos pelo demônio. Em 1975 - ou seja, há apenas 35 anos -, um hospital de Lima, no Peru, mantinha os autistas trancafiados em celas, com a seguinte frase na porta: ''Não se aproxime, pois eu mordo''. ''Hoje, os autistas levam uma vida significativa e isso está ajudando a apagar o estigma dos transtornos psiquiátricos. O estigma é o maior obstáculo aos cuidados da sa© úde mental'', diz.
Além de contar a experiência com sua filha, o autor fala também de como o autismo é visto em outras culturas, como na África do Sul, Índia e Coreia do Norte. ''Muita gente ainda associa o autismo a causas sobrenaturais. Na África, eu falava para as pessoas que a doença não tinha nada a ver com espíritos. Algumas até entendiam, mas, ainda assim, consultavam especialistas espirituais, apenas por garantia''.
Apesar de hoje ser mais comum o diagnóstico de autismo, o próprio autor não aponta uma forma correta para identificar a doença. ''Diagnosticar problemas mentais não é um exercício puro, como dividir as espécies. Pode ser arbitrário ou imperfeito'', diz ele. ''Em que ponto a inaptidão social pode ser considerada autismo? Até onde o envolvimento obsessivo com uma determinada atividade repetitiva é um sintoma? O diagnóstico psiquiátrico ainda é imperfeito. O objetivo é ajudar o paciente. Se isso significar dar um diagnóstico, que seja'', conclui.
SERVIÇO
- Autismo - Um Mundo Obscuro e Conturbado
Autor - Roy Grinker
Editora - Larousse
Quanto - R$ 44,90


