São Paulo, 16 (AE) - A partir de amanhã (16) os paulistanos poderão ver a terceira e última parte do ciclo de mostras organizado pelo Itaú Cultural para discutir a importância do objeto na história da arte do século 20, com a inauguração da exposição "O Objeto, Anos 60-90". Organizada pelo Museu de Arte Moderna (MAM) do Rio, onde ficou em cartaz entre os dias 8 de abril e 30 de maio, a mostra reúne trabalhos de 30 artistas brasileiros. As primeiras mostras do projeto foram "Por que Duchamp?", em cartaz no Paço das Artes, e "O Objeto, Anos 90", que pôde ser visto até o dia 30.
Os autores selecionados pertencem a diferentes gerações e incorporaram em suas obras referências ao mundo concreto à sua volta de várias maneiras, seja dando continuidade às experiências cubistas com as assemblages ou aos ready-made de Marcel Duchamp, quer promovendo uma ação deliberadamente transgressora, que marcou profundamente a geração dos anos 60. A maioria dos trabalhos pertence à coleção de Gilberto Chateaubriand, que foi cedida ao MAM em comodato.
A presença do cotidiano na arte brasileira tem início na década de 60, sendo bastante tardia, principalmente se levarmos em consideração que em 1913 Duchamp choca o mundo da arte colocando uma roda de bicicleta sobre um banco e chama isso de obra de arte. É nesse período que o Brasil se configura como nação urbana e os objetos "chegam com muita contundência, frequentemente associados a um posicionamento político diante da ditadura", contextualiza o curador do MAM, Agnaldo Farias, que divide a autoria da concepção da mostra com o crítico Reynaldo Roels Jr.
Esse posicionamento de confronto político está muito bem representado na exposição, com obras como os "Cantos", de Cildo Meireles, que acabaram por transformar-se numa metáfora da asfixia e falta de opções derivada da repressão política, ou "Para um Jovem de Brilhante Futuro", de Carlos Zílio, que retrata com grande sarcasmo a conivência dos executivos para com o regime.
Não poderia faltar na exposição a presença de Farnese de Andrade, que explorou como ninguém a potencialidade dos objetos e materiais, realizando assemblages de grande força simbólica, como a cadeira de madeira usada como suporte para penico, mas que no lugar do assento tem um belo mapa da América Latina.
O outro grande núcleo de trabalhos remete de forma mais direta à irreverência pop, explorando o brega, o popular. "O Mundo de Lindonéia - A Gioconda do Subúrbio", de Rubens Gerchman, pertence ao cotidiano humilde dos subúrbios cariocas e das metrópoles similares de então", escreve Farias, lembrando que o aspecto kitsch da peça, que se tornou um ícone do tropicalismo, só faz reforçar a ousadia dessa "Vênus desassistida", que teve a coragem de invadir o espaço do museu e da arte de elite.
Esse tipo de procedimento continua sendo largamente explorado pelas gerações atuais, das mais distintas formas. Vê-se na exposição desde intervenções de cunho mais poético, como as toalhas de voile sobre a qual Lia Menna Barreto aplica bonecos e flores de plástico derretidas como se fossem borrachas
até obras mais agressivas como o falo recoberto de pérolas e pedras aparentemente preciosas de Márcia X, que pertence a um núcleo de intervenções que exploram a fetichização do sexo.
Outro viés bastante explorado pelos artistas dos anos 90 é a recontextualização absurda dos objetos, recolocando-os em situações que permitem explorar ao máximo seu caráter simbólico. Assim faz Barrão, ao colocar os pés de uma escada sobre carrinhos de brinquedo, ou Jorge Duarte, que constrói um jogo surreal ao criar uma prancha de passar roupa que na realidade tem a forma de um ferro. Cotidiano/Arte: O Objeto, Anos 60-90. De terça a sexta, das 10 às 21 horas; sábado e domingo, até 19 horas. Itaú Cultural. Avenida Paulista, 149, tel. 238-1700. São Paulo.Até 8/8.

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