Começar de novo é a regra da esperança. O eterno reiniciar, logo após algum problema, é uma espécie de lei que as pessoas aceitam para permanecerem vivas. Mas o começar de novo também pode ser uma ilusão que a mente planta no pensamento do homem. Planta não com o objetivo de que a vida siga em frente, mas para que o pensamento tenha uma continuidade e possa dar sentido à vida.
  Começar de novo também pode ser o início de um novo problema, o fermento do fracasso. Em outras palavras, começar de novo é gerar uma nova ilusão. Essa é a imagem sugerida pelo escritor Paul Auster em seu novo romance, ‘‘O Livro das Ilusões’’, que acaba de ser publicado pela Companhia das Letras.
  Nascido em 1947, Auster é responsável por uma das narrativas mais interessantes produzida hoje na literatura norte-americana. ‘‘O Livro das Ilusões’’ é sua obra mais complexa se comparada a outros romances como ‘‘Música do Acaso’’, ‘‘Leviat㒒, ‘‘Timbuktu’’ e ‘‘A Invenção da Solidão’’. Isso porque trabalha com duas histórias de maneira paralela e ao mesmo tempo integrada. E no meio dessas duas histórias, insere outras que completam e dimensionam as principais.
  O romance é narrado por David Zimmer, um professor de literatura que, ao perder a esposa e os filho num acidente aéreo, passa a vagar pela vida com amargura e praticamente desiste da existência. Certo dia, ao assistir um documentário sobre comédias mudas, dá sua primeira risada após meses de melancolia. O responsável pela façanha é um diretor/ator pouco conhecido chamado Hector Mann.
  Procurando dar um sentido para continuar existindo, David resolve se dedicar a escrever um livro sobre Hector. Para isso realiza uma minuciosa pesquisa, viajando de museu em museu procurando filmes de sua autoria. Juntado as informações que encontra, percebe que um mistério encobre a vida de Hector, que no início da década de 40 simplesmente sumiu do mapa. Seu corpo nunca foi encontrado e ninguém conseguiu descobrir o que aconteceu.
  Após publicar o livro, recebe uma carta dizendo o improvável: Hector estaria vivo, com outra identidade morando numa árida fazenda do Novo México. Assinada pela esposa de Hector, ainda fala que ele não parou de filmar e que deseja apresentar filmes desconhecidos a David, que não leva a sério a hipótese.
  Depois de muita insistência, e procurando mais uma desculpa para continuar vivo, David resolver encarar a empreitada. Com o auxílio da afilhada de Hector é levado ao retiro do diretor, que está próximo da morte. Fica sabendo que Hector abandonou o mundo por se sentir culpado pela morte de uma pessoa. Acossado pelo sentimento de perda, passa a levar uma vida errante procurando se penitenciar.
  Após viver situações criadas pelo acaso, sempre tentando anular sua existência, Hector aceita viver alguns momentos de felicidade ao lado daquela que se tornaria sua esposa. Decide também voltar a filmar, mas sob um pacto rígido e delirante: fazer filmes para ninguém assistir. Ele chega a criar dezenas de filmes com uma equipe de três ou quatro pessoas, todas guardando segredo absoluto. Desenvolve, dessa maneira, um cinema radical, uma arte sem espectador.
  O pacto de Hector com as pessoas que contribuíram com a realização dos filmes vai além. Todas as películas, que possuem uma única cópia, devem ser queimadas poucas horas após sua morte. Nenhum vestígio dessa produção deve ser perpetuada. David seria o único espectador aceito, numa espécie de exceção. O problema é que quando David finalmente chega ao momento de assistir às produções, Hector morre e os filmes devem ser queimados o mais rápido possível. Então, novos dramas têm início.
  Arquitetado como um labirinto de identidades e vidas destroçadas, ‘‘O Livro das Ilusões’’, possui uma estrutura narrativa que traça pontos emocionais e coloca histórias existenciais correndo à sua volta. Esses vários pontos vão se deslocando, levando a reboque tudo em sua órbita, até uma tentativa de união, que, por sua vez, não tem esperança de acontecer. O destino de David e Hector são semelhantes. Ambos, cada um a seu modo, experimentam um intenso sentimento de perda e passam o resto da vida recolhendo os destroços. E nem mesmo a morte consegue reerguer suas almas.
  Seria possível fazer uma intrincada e extensa comparação entre ‘‘O Livro das Ilusões’’ e os romances escritos anteriores por Paul Auster. Mas o importante é que quase todos os personagens criados por ele vivem num tormento semelhante. Um tormento que aceita o acaso da dor como parte da existência. Personagens que levam a vida da maneira mais honesta possível. Uma honestidade que procura fiapos de esperança dentro da consciência da ilusão. Como olhar para as nuvens quando pessoas que amamos se ausentam de nossas vidas. Como o eterno começar de novo se apresentando como uma nova ilusão.

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