Obra de Franco Giglio – sem título
Obra de Franco Giglio – sem título | Foto: Acervo público



"Aquilo que é velado, a nudez desvela" e, em 2017, trouxe à tona o pior do "ódioativismo" semeado nas redes sociais e que impactaram sobremaneira exposições artísticas em todo o país, haja vista a enorme repercussão do vídeo que viralizou de uma criança interagindo com a performance de um artista nu no MAM (Museu de Arte Moderna de São Paulo). O episódio abriu caminho para outras decisões controversas como a autocensura do Masp (Museu de Arte de São Paulo), que pela primeira vez em 70 anos teve classificação etária de 18 anos para a mostra "Histórias da Sexualidade". Some-se a isso a decisão do Santander Cultural de Porto Alegre de encerrar prematuramente, um mês antes do programado, a exposição "Queermuseu: Cartografias da Diferença na Arte Brasileira."

Tais fatos temporariamente sucumbiram à pressão de movimentos que reduzem questões de gênero, diversidade e o próprio nu à perversão e à imoralidade, mas não lograram sucesso em ceifar o corpo e seu lugar central em discussões de diversas vertentes do conhecimento humano e, principalmente, nos espaços culturais e artísticos. Convicta sobre o "desvelar da sociedade" a partir dos corpos despidos, a pesquisadora, curadora da exposição "Vestidos em arte", em cartaz no MON (Museu Oscar Niemeyer) e professora de História da Arte do Departamento de Artes da UFPR (Universidade Federal do Paraná), Stephanie Dahn Batista, ressalta a importância de usar todo os sentimentos que a nudez desperta em cada um como ponto de partida para a reflexão. "De forma despretensiosa, já que deriva do meu doutorado esse trabalho, e por obra do acaso, pois é o primeiro projeto de pesquisa científica da UFPR a integrar a programação do MON, que desde 2015 vinha sendo reagendado, a mostra 'Vestidos em arte' ingressou na programação após todos esses acontecimentos que seguem com desdobramentos até agora, com a recente decisão do MPF-RS (Ministério Público Federal do Rio Grande do Sul) para a realização de duas novas exposições", comenta. Essas duas novas exposições serão montadas pelo mesmo Espaço Santander que antes encerrou prematuramente e sob pressão a mostra Queermuseu.

Obra de Ennio Marques Ferreira – Rua do Pêssego (1988)
Obra de Ennio Marques Ferreira – Rua do Pêssego (1988) | Foto: Acervo público



PERTURBAÇÃO - A pesquisadora admite perceber toda a polêmica permanente em que o corpo se insere desde seus primeiros estudos sobre o uso do corpo na arte. Tal constatação serviu de embrião da investigação de sua tese de doutorado – "Corpo falante: as inscrições discursivas do corpo na pintura acadêmica brasileira do século XIX" - , concluído em 2011, e que evidencia a incessante perturbação causada pelo corpo e seu lugar instável na arte, na política e na sociedade. "Hoje o corpo humano é o último território a ser explorado. Basta ver a infinidade de pessoas tatuadas, com largadores, etc. Ele perturba, por se tratar do primeiro alvo da materialidade do ser humano e que toca diferentes facetas. Tem o desejo e a erotização, mas o uso da Academia e a invisibilidade daquilo que não é aceito. Pessoas obesas mesmo detendo tanta matéria são invisíveis", constata. "Na verdade, o lugar do corpo é tramado por superposições de tempos presentes, conflitos e seu papel político, que em certos momentos afrouxa e em outros endurece inscrições discursivas de gênero, raça e classe", observa.

Obra de Erbo Stenzel – sem data e sem título
Obra de Erbo Stenzel – sem data e sem título | Foto: Magaléa Mazziotti



ACERVOS PÚBLICOS - Segundo Stephanie, as 97 telas da mostra no MON derivam de um profundo trabalho de análise de 12 mil obras de nus presentes nos acervos públicos de Curitiba, que passaram por uma pré-seleção de 700 para submetidas, a partir de 2013, aos estudos de iniciação científica do Departamento de Artes da UFPR. Por isso que a curadoria também é assinada pelas assistentes Aline Luize Biernastki, Ana Paula Clemente, Carolina Tokars Wernick, Erica Storer de Araújo, Isadora Buzo Mattiolli, Iuska Volski Mota e Naiara Akel. As 97 obras são assinadas por nomes como: Erbo Stenzel, Guido Viaro, Paul Garfunkel, Rones Dumke, Ennio Marques Ferreira e a londrinense Fernanda Magalhães. A divisão em sete núcleos cumpre a função primária de provocar a reflexão do corpo em diversas nuances: como objeto artístico; na Academia; no desejo; como corpo invisível; fragmentado; bizarro e grotesco e 'o corpo vem em gênero'. "Esse é o limite da morada da nossa alma. Elemento entre o ego de cada um e a coletividade. Cada visitante tem o direito de refletir sobre isso, mas com subsídios, não sendo refém do ódio pelo ódio", ensina.
Tendo contato com o curador da exposição "Queermuseu: Cartografias da Diferença na Arte Brasileira", Gaudêncio Fidelis, Stephanie é solidária à frustração dele sobre o compromisso firmado entre o Santander Cultural e o MPF-RS para a realização de duas novas exposições. Fidelis considerou que o acordo abre precedente para a "censura prévia".

Serviço
Exposição Vestidos em Arte – nus nos acervos públicos de Curitiba
Até 25 de março de 2018
Local : Sala 4 do Museu Oscar Niemeyer - Rua Marechal Hermes, 999
Telefone: 41 3350-4400 ou museuoscarniemeyer.org.br
Terça a domingo, das 10h às 18h
Retirada de ingressos: até 17h30
R$ 20 e R$ 10 (meia-entrada)

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