Nelson Sato
De Londrina
O novo pop do sul é torto, difícil de mascar e repleto de modernices. Jupiter Apple, Wander Wildner, Flu e Ratão são alguns dos nomes que representam hoje a diversidade da música jovem gaúcha.
Os quatro, todos ex-integrantes de bandas porto-alegrenses, estão lançando discos pela gravadora Trama. O pacote é heterogêneo, com a qualidade oscilando de um trabalho para outro. O principal destaque é ‘‘Plastic Soda’’, segundo álbum de Jupiter Apple (ex-TNT e Cascavelettes), que até o verão passado atendia pela alcunha de Jupiter Maçã.
O CD é surpreendente. Traz duas faixas instrumentais, uma delas de dez minutos. O artista canta todas as músicas em inglês e toca tudo incluindo guitarras, baixo, bateria, piano, órgão, maracas, bongôs e violinos. Se em ‘‘Sétima Efervescência’’, o disco anterior, ele se rendia ao psicodelismo e à jovem guarda, agora envereda pela bossa nova.
A abordagem, porém, é peculiar soando ‘‘gringa’’ e estilizada como um Beck incursionando pelo gênero. A bossa aqui, na verdade, parece mergulhada em ácido e em outras substâncias proibidas. O que é aquela cafungada na canção que dá nome ao disco?
Jupiter revisita os clichês da batida ao violão em pelo menos seis faixas. Paga mico em interpretações contidas esforçando-se para parecer João Gilberto, Caetano Veloso e Chet Baker. Os vocais dobrados espalham-se pelo restante do disco, sugerindo até vozes femininas nos backings. Não por acaso, lembra Stereolab nas ótimas ‘‘Collection Inside Collection’’ e ‘‘Over the Universe’’.
A exemplo de seu álbum de estréia, este explora timbres e instrumental de época combinando-os com ruídos e efeitos eletrônicos. E assim também como aquele, chega ao público como um clássico impagável do pop nacional. O mesmo não se pode dizer dos demais lançamentos da fornada gaúcha.
Wander Wildner ainda empolga e mantém o vigor em ‘‘Buenos Dias!’’, seu segundo trabalho-solo, mas permanece atado ao que batizou de punk brega. É, talvez, o grande letrista de sua geração. Foi vocalista dos Replicantes, banda que marcou os anos 80 com sucessos como ‘‘Surfista Calhorda’’ e ‘‘Festa Punk’’.
É dessa fase a faixa ‘‘Minha Vizinha’’, incluída no novo trabalho. As guitarras toscas e aceleradas batem ponto ainda em mais três canções – uma cita os personagens do seriado de tevê ‘‘Barrados no Baile’’, outra é uma versão da tradicional canção americana ‘‘Michael (Row the Beat Ashore)’’, enquanto a terceira é exemplar da poética debochada do rapaz.
Repare na letra: ‘‘Na minha rua / Tem um neguinho que joga futebol o dia inteiro / a mãe é lavadeira / o pai é um bêbado / O que ele vai ser quando crescer? / Rato de Porão / Na minha esquina / Tem um velhinho que toma conta do estacionamento / Ele não tem carro / nem bicicleta / O que ele vai ser quando crescer? / Rato de Porão / Na minha casa / Tem três golfinhos / que tomam conta da sala de estar / Ele são cinza e têm olhos azuis / O que eles vão ter para o jantar? / Rato de Porão’’).
Wildner passeia ainda por baladas-rock, hard rock blues e até referências a Arnaldo Baptista (‘‘Não sei Viver’’). Durante as gravações, ele foi acompanhado pela banda Chulé de Coturno. Para o final do ano, o artista prepara o lançamento de outro disco, provisoriamente intitulado ‘‘Pára-Quedas do Coração’’, desta vez recheado de arranjos orquestrais.
No outro extremo das tendências musicais que proliferam no sul, pula dos fornos o CD de estréia de Flu, ex-baixista do grupo De Falla. ‘‘...e a alegria continua.’’ é uma trip eletrônica com um pé no lounge. A supremacia é das texturas, com a colisão de ritmos e fragmentos melódicos sobrepondo-se em cada faixa.
As composições lembram mais esboços, exercícios, colagens ligeiras feitas no computador. Por razões que se desconhece, o disco recebeu elogios de quase toda a crítica especializada. Mas a ambição do criador, resultou apenas em caricatura e verniz modernoso. Para o ouvinte, sobra tédio. Frustrante também é a estréia de Ratão, ex-vocalista da banda de rock Justa Causa.
No CD homônimo, ele escorrega investindo em funk e vertentes eletrônicas. Como curiosidade, perpetra uma versão techno de ‘‘Canos Silenciosos’’, de Lobão. Fiquem com Jupiter Apple e Wander Wildner.Quatro artistas, todos ex-integrantes de bandas gaúchas, invadem o mercado com CDs solos
DivulgaçãoJupiter Apple: bossa nova em inglêsDivulgaçãoWander Wildner: baladas-rock em letras inspiradasDivulgaçãoFlu: lounge eletrônicoDivulgaçãoRatão: techno e funkReproduçãoReproduçãoReproduçãoReprodução

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