O novo filme do mestre português Manoel Oliveira, "A Carta", estréia amanhã
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quarta-feira, 05 de abril de 2000
Por Luiz Carlos Merten 
São Paulo, 06 (AE) - Exibido em competição no Festival de Cannes do ano passado, "A Carta", de Manoel de Oliveira, recebeu o prêmio do júri. O filme estréia amanhã (07). Na pré-estréia realizada no domingo, no Hotel Maksoud, foi recebido às gargalhadas pelo público. Criou-se uma situação constrangedora. Tudo bem se fosse uma comédia, mas não é.
Aos 91 anos (nasceu em 1908), Oliveira é o mais velho cineasta do mundo em atividade. Trabalha a todo ritmo para integrar de novo a seleção de Cannes com seu novo filme, sobre o Padre Vieira. É um mestre, um gênio. Mas Oliveira vem produzindo atualmente num ritmo binário. A um filme bom segue-se outro nem tanto. A um filme maravilhoso, outro decepcionante. Mais do que decepcionante, "A Carta", que se segue ao genial "Inquietude", é desconcertante.
É uma adaptação do romance "A Princesa de Clves", de Madame de Lafayette, que ganhou uma versão acadêmica de Jean Delannoy, com roteiro de Jean Cocteau e a bela interpretação de Marina Vlady, no começo dos anos 60. Delannoy fez um filme de época, na tradição do cinema de qualidade francesa que a revista "Cahiers du Cinéma", na fase de capa amarela, abominava. Oliveira atualiza a saga da princesa de Clves. Seu filme passa-se na Paris atual.
Chiara Mastroianni, a filha de Marcello e Catherine Deneuve (dois atores que já incursionaram pelo cinema de Oliveira), faz Madame de Clves. Casada, inspira a paixão de um roqueiro, interpretado pelo roqueiro português Pedro Abrunhosa, que faz o próprio papel. Abrunhosa aparece quase sempre de óculos escuros. Solene, vive fazendo curvatura para cumprimentar Madame de Clves, a quem só se refere, cerimoniosamente, como Madame.
Oliveira assina o roteiro. Contou com a colaboração de Jacques Parsi. Vale explicar o método de trabalho do diretor. Oliveira encomendou a Parsi dois resumos do livro. Um, à razão de uma página por capítulo. Outro, resumindo o livro todo a uma só página. A partir daí, Oliveira esqueceu o livro e trabalhou só com os resumos. O segundo definiu a estrutura de "A Carta". É um filme divido em blocos compactos. Oliveira cria uma espécie de teatro. Ligando as cenas, recorre a extensos textos explicativos que, às vezes, ocupam todo o tamanho da tela.
É um filme sobre como os desejos instalam a desordem num mundo aparentemente organizado e tranquilo. Começa e termina em concertos de rock. Entre esses extremos se desenrola a história de Madame de Clves, casada com um homem que respeita, mas não ama, e que terminará por matar de desgosto quando ele descobre seu amor por outro. Oliveira filma com frieza o mecanismo da paixão. Não deixa de ser um partido curioso.
"Cahiers du Cinéma", que tem o diretor em alta conta, não deixou por menos e achou "A Carta" uma obra-prima. Já o público do Maksoud achou tudo ridículo. Talvez não seja. "A Carta" pode ser desconcertante, mas obedece a uma lógica cartesiana e rigorosa. Madame de Clves conhece só o amor socializado - afeição maternal pelo marido, amor da religião, de Deus. Confrontada com a violência da paixão, essa mulher, magnificamente interpretada por Chiara Mastroianni, opta pelo que não deixa de ser uma forma de sacrifício e suicídio.
A solução do desfecho, embora diferente da do livro (e do filme de Delannoy-Cocteau), mostra como ela prefere seguir a lei de Deus. O filme de Oliveira desconcerta porque, apesar de seus laços com a atualidade, não parece contemporâneo. Mas ele próprio disse em Cannes que, a ser moderno, preferia ser eterno.


