O NOVO ENDEREÇO DA ARTE
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 27 de novembro de 2001
Zeca Corrêa Leite <br> De Curitiba 
A partir desta noite Curitiba passa a contar com mais um espaço de arte. Às 20 horas inaugura a Arte Singullar, com exposições de quatro artistas: Luiz Carlos Brugnera, Rubens Oestroem, Meyer Filho e o escultor Alfi Vivern. A cada um foi destinada uma sala.
O novo endereço pertence a Luiz Ernesto Meyer Pereira que durante anos ocupou a pasta de Cultura da Prefeitura Municipal de Cascavel, impulsionando o movimento artístico da cidade e à arquiteta Luciana Pereira Ferreira. ''A nossa intenção é que os artistas que expuserem seus trabalhos, de fato produzam arte, que emocionem as pessoas'', anuncia Pereira.
Luiz Ernesto, mesmo tendo criado o conhecido Festival de Música de Cascavel, levando para lá músicos eruditos e populares, tem uma queda especial pelas artes plásticas. Já em 1975 ele organizava na Galeria Acaiaca uma exposição de Meyer Filho. Mais tarde repetiu a dose em Buenos Aires e Mar Del Plata. ''Ele é irmão da minha mãe'', explica.
Atento aos valores à sua volta, foi o primeiro a descobrir em Luiz Carlos Brugnera um sólido talento. Com 26 prêmios conquistados nos últimos anos é o brasileiro mais premiado da atualidade , o moço já expôs no Masp (São Paulo), no Palácio Gustavo Capanema (Rio de Janeiro), Palácio Itamaraty (Brasília), Centro Cultural Ricoleta (Buenos Aires), entre outras plagas. Venceu o 55º, 57º e 58º Salão Paranaense. Este último, será aberto em dezembro.
Luiz Carlos Brugnera reconhece a importância de Pereira em sua vida. ''Posso dizer que poucas pessoas na minha carreira tiveram tamanha importância como ele'', afirma. Para a inauguração da Arte Singullar estará expondo uma única peça, mas de importância capital a partir desta, irá produzir entre dez a 12 peças que comporão uma exposição itinerante.
A obra na dimensão de 1m x 2m retrata a mão de Cristo, ferida pelo cravo, depois de ser retirado da cruz. ''Descido da Cruz'' levou o artista a trabalhar novamente com o hiperrealismo, que foi a sua marca inicial e lhe deu a certeza da arte. Essa forma mais pura do hiperrealismo ele abandonou em 1998, para assumir outras técnicas.
Os últimos três anos foram consumidos na construção da casa conceitual, que é uma série de instalações produzidas com materiais diversos. ''Descido da Cruz'' adquiriu a importânncia inquietante de um teste, do tipo ''vamos ver a quantas anda meu traço de desenho'', como diz Brugnera. Afinal, o figurativo estava fora de sua vida. O reencontro mostrou ao artista que seu traço melhorou, ''mesmo na ausência do desenhar''.
Debruçar-se sobre um tema religioso mexeu com Luiz Carlos Brugnera. Foi um processo difícil para ele, que ficou no dilema da espiritualidade e da arte. Enquanto de um lado seu olhar criador tendia para a confecção da obra, os recônditos da alma guardavam um respeito ainda mais profundo para o Ser supremo. ''Do jeito que me conheço, dificilmente farei outra'', confessa.
''Sou digno ou não de ficar realizando este tipo de trabalho?'', perguntava-se. Vivendo a contraditória felicidade da realização e do temor deu início, meio e fim à peça. ''A espiritualidade é algo muito sério e digo isso por mais séria que seja a minha atividade artística. Gostaria que quando as pessoas vissem 'Descido da Cruz' o desvinculassem de qualquer apropriação do tipo 'fez algo que toca fundo nas pessoas, simplesmente para angariar aplausos''.
q: Luiz Carlos Brugnera, Rubens Oestroem, Meyer Filho e Alfi Vivern expõem na Galeria Arte Singullar, que será inaugurada hoje na Rua Saldanha Marinho, 1582 (telefone (41) 224-2010), em Curitiba. Visitação pública de segunda a sexta-feira das 10 às 19 horas, sábado das 10 às 14 horas.


