O jargão do futebol veste aqui como uma luva. Qualquer filme do chinês Wong Kar-wai é sempre uma caixinha de supresas. O deste ano é ‘‘In The Mood for Love’’. O filme é o último da competição e passa amanhã. Muitos jornalistas apostam no escuro que Kar-wai pode desequilibrar e fazer a diferença. Agora é aguardar.
Enquanto isso, é possível conhecer um dos nomes mais representativos da nova geração do cinema japonês, o jovem (36) Shinji Aoyama. O filme dele, ‘‘Eureka’’, passou ontem pela manhã. Num fato pouco comum em qualquer Festival de Cannes, neste caso a subida das escadarias do Palais, ou a ‘‘montée de marches’’, foi às 9 da manhã, na mesma sessão para a imprensa, e não no fim da tarde ou à noite como ocorre diariamente. Diretor, produtores, elenco e técnicos assistiram à projeção matinal. Ao final dos 217 minutos, aplausos demorados, sinceros e merecidos. Se o filme fosse um pouquinho menor, Aoyama teria sido ovacionado incondicionalmente.
Numa ilha ao sul do Japão, na província de Kyushu, um homem invade um ônibus, mata diversos passageiros, mantém como reféns o motorista, uma garota e o irmão dela. A polícia intervém e mata o homem. A vida dos três sobreviventes ao massacre não será a mesma. A partir daí, Aoyama cria um detalhado drama psicológico. Tempo, afinal, não lhe falta. A estrutrura do filme é necessariamente complexa. No princípio se instala o caos: a violência e a consequente destruição do universo de cada um dos personagens.
Na segunda metade ocorre a ressurreição. Eles devem renascer e Aoyama encontra a maneira mais adequada: colocá-los em movimento. Esta volta à vida ocorre em processo on the road. A bordo de um ônibus-trailer improvisado, eles percorrem uma trajetória que é antes de tudo uma viagem ao mais íntimo de cada um. Aoyama propõe ainda uma reflexão sobre a célula familiar contemporânea e a violência. O resultado é sombrio.
Na coletiva Aoyama falou sobre a duração de seu filme. ‘‘Três horas e quarenta minutos eram absolutamente necessárias para minha narrativa. E ainda não estou completamente seguro de que está tudo lá. O filme adota a forma mais conveniente para traduzir o que quero dizer. Meu olhar tem múltiplas facetas. Não quero heróis, mas sobrepor diversas histórias, adicionar múltiplos detalhes. E desta acumulação deve ressurgir a realidade humana. Por isso não adoto jamais um ponto de vista subjetivo sobre meus personagens.’’
Também em competição, o israelense ‘‘Kippur’’, de Amor Gitai, adota procedimento original como filme sobre a guerra. O dia é 6 de outubro de 1973. É calma em Israel, é o Yom Kippur. Mas a guerra explode, e dois amigos, Ruso e Weinreub, são escalados em missão de resgate de mortos e feridos na região de Golan, em plena zona de tiro. A excitação e o entusiasmo de ambos nos primeiros momentos cede lugar à desilusão e à exaustão. No dia 10 de outubro, eles são enviados em missão de resgate em território sírio. O helicóptero onde estão é atingido por um míssil, e eles passam à condição de baixas de guerra.
A visão de Gitai é única. É provável que o cinema jamais tenha mostrado de tal maneira a inutilidade da guerra, qualquer guerra. Nenhum glamour na reconstituição quase documental de uma terra arrasada onde lama e restos humanos se confundem. Desagradável aos sentidos (as cenas de resgates parecem durar uma eternidade, o barulho ensurdecedor dos helicópteros é propositalmente irritante, os diálogos são raros e desconexos), ‘‘Kippur’’ pertence àquela espécie de filme que é visto antes de mais nada como dever moral. Duro, mas necessário.
Um filme sul-coreano que é um triunfo cultural e artístico. Assim pode ser descrito ‘‘Chunhyang’’, que passou pela seção competitiva sem causar muito barulho, à exceção, claro, da estridência que se ouve na trilha sonora. É uma lenda localizada na Coréia feudal, século 13. E como em toda lenda que se preza tem que haver um bom narrador. O diretor Im Kwon-Tack, o mais proeminente realizador de seu país, colocou um cantor de ópera num teatro em frente a uma platéia contempoânea para contar a história de um jovem casal e suas vicissitudes amorosas em tempos antigos. Como uma espécie de cego cantador de sagas do nordeste brasileiro, o cantor, acompanhado somente por um tambor monocórdico, vai desfiando o romance entre o filho do governador de província e a filha de uma cortesã profissional.
Apesar do estilizado formalismo - há 8 mil extras e 12 mil trajes em cena -, o filme jamais é estático em sua fascinante narrativa sobre uma quase tragédia com happy end. O que impressiona na direção e no elenco é como doses generosas de emoção conseguem passar para a platéia apesar da ‘‘mise-en-scene’’.
Baseado em romance de Henry James, ‘‘The Golden Bowl’’ é mais uma daquelas associações do trio James Ivory (diretor), Ismail Merchant (produtor) e Ruth Prawer Jhabvalla (roteirista). Nobre italiano arruinado se casa com filha de milionário americano.
A ex-amante do príncipe se casa com o milionário. Adultério, decadência, classes sociais em mutação, tesouros artísticos trocando de mãos, intrigas, paixões ccorrespondidas ou não. Sobre este universo, Visconti foi o primeiro, único, definitivo. James Ivory não soube, ou não conseguiu, injetar força na prosa delicada de James. Seu cinema sofre de congênita falta de vigor. E ninguém está muito bem no filme: Uma Thurman, Nick Nolte, Anjelica Huston, Kate Beckinsale, James Fox e Jeremy Northan.

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