O NORDESTE EM VERSO E PROSA
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 29 de agosto de 2001
Jackeline Seglin<BR>De Londrina 
Vários aspectos da cultura popular brasileira estão em evidência esta semana, em Londrina, com a realização da 6 Festa Nordestina, que acontece até domingo, no Museu de Arte. O evento reúne atividades de música, dança, teatro, artesanato, literatura, capoeira, cinema, artes plásticas e culinária, como um apanhado da produção popular do Nordeste brasileiro.
Barracas de comidas típicas e balcões com peças do artesanato nordestino estão instalados sob os arcos do Museu de Arte, que também abriga um palco para shows musicais e apresentações de teatro e dança. O evento abriu ainda espaço para exposições de arte, exibição de filmes e realização de palestras e oficinas.
Um dos convidados da festa é o artista pernambucano radicado em São Paulo, Valdeck de Garanhuns, que está na cidade ensinando aos londrinenses os conceitos básicos da literatura de cordel e da xilogravura (gravura em madeira). Defensor da preservação da cultura brasileira, Valdeck Costa de Oliveira, 49 anos, circula pelo País fazendo arte. Ele é pedagogo, arte-educador, cantor e compositor, mestre do teatro de mamulengos, poeta e artista plástico.
Em Londrina, Valdeck de Garanhuns vem trabalhando com 30 pessoas que estão aprendendo a fazer versos dentro da métrica e da rima da literatura de cordel. Alguns versos de improviso já foram rascunhados, mas a expectativa é terminar a oficina com a produção local de um folheto. Valdeck também está ensinando uma outra arte aos alunos, a xilogravura. As imagens entalhadas em madeira e reproduzidas em papel são utilizadas para ilustrar os folhetos de cordel.
Para Valdeck de Garanhuns, um dos melhores xilogravuristas do País e autor de vários folhetos de cordel, a arte popular está em expansão no Brasil. No entanto, ele acredita que falta divulgação para a cultura brasileira. ''Temos um inimigo forte que é a televisão exceto as educativas'', afirma. ''Cada cidade tem seu movimento cultural em evidência, mas as pessoas não notam a expansão porque a mídia não mostra nada disso. As tevês dão espaço para os estrangeirismos que não têm a ver com a gente''.
O artista acha que a falta de opção é a barreira que impede mais pessoas de chegarem à arte popular. ''Falta mostrar. O povo gosta do que é bom'', sinaliza. ''Eu me sinto satisfeito em ser uma das pessoas a colaborar com a expansão da nossa cultura''. Durante a Festa Nordestina estarão expostas algumas gravuras e folhetos de Garanhuns. Pode ser que o artista também dê uma ''canja'' com o boneco Benedito, um dos mamulengos que o acompanham em suas andanças.
CD-rom do acervo da
UEL será lançado hoje
A 6 Festa Nordestina terá outro evento ligado à literatura de cordel que vai marcar a programação de hoje. É o lançamento do CD-rom da Coleção de Literatura de Cordel da Biblioteca Central da Universidade Estadual de Londrina (UEL). Trata-se do segundo maior acervo do mundo com três mil títulos diferentes (2800 já catalogados) o primeiro, com oito mil exemplares, está na Universidade de Tsukuba, no Japão, e o terceiro, na França (cerca de dois mil). O lançamento do CD-rom será às 19h30, na Biblioteca do Museu de Arte.
Em seguida, o professor Alcides Carvalho, diretor da Casa de Cultura da UEL e doador de parte dos exemplares da coleção, faz uma palestra sobre ''100 Anos do Cordel'', comentando o conteúdo do CD-rom e a importância do acervo brasileiro. Mestre em Literatura Popular Brasileira em Verso pela Universidade Sorbonne (França), Carvalho explica que a literatura de cordel é estudada por pesquisadores do mundo inteiro. ''E hoje, a literatura popular em verso mais produtiva do mundo é a do Brasil''.
A importância do cordel para a cultura brasileira, na opinião do especialista, é que essa literatura reflete fielmente a realidade popular e por esse motivo outros povos são tão interessados em acervos de cordel brasileiro. ''Neles está realmente expressa a cultura brasileira em termos de Deus, poder, terra, casamento e outros assuntos do cotidiano. Toda essa cultura que rege o povo brasileiro está inserida poeticamente no cordel'', diz.
Uma característica marcante é que a literatura de cordel brasileira não desapareceu com a vinda do homem para os centros urbanos. Ao contrário, ela se multiplicou. O que mudaram foram os temas, que alcançaram assuntos como problemas da cidade, programas de televisão, novelas. ''O poeta passa a assimilar a realidade urbana e interpretá-la para o leitor em versos''.
Hoje os maiores centros de produção de cordel no Brasil são o Rio de Janeiro e São Paulo, devido à grande concentração de nordestinos nessas cidades. No Paraná, poetas nativos também produzem versos em cordel. ''Por influência e tradição oral eles são excelentes cordelistas e têm todas as características perfeitas de cordel'', afirma.
Carvalho comenta que a literatura de cordel mantém a mesma estrutura medieval dos menestréis, dos cantadores. Ou seja, é fácil de decorar por causa das rimas e da métrica perfeita. ''Isso facilita a leitura e por esse motivo é muito aceita no meio popular'', acredita. O professor conta que a literatura de cordel brasileira possui 20 mil títulos já publicados.
Apesar de ter origem anterior, o cordel está comemorando os 100 Anos de marco da sua descoberta e pesquisa no Brasil. A literatura popular em verso, de acordo com Alcides Carvalho, teve origem em países árabes no início do ano 1000. No Brasil, a cultura do cordel chegou com a colonização em forma de folhetos e depois transformou-se em livrinhos. Os folhetos levam o nome de cordel porque são vendidos em cordões espécies de varais.
O CD preparado pela Biblioteca da UEL será distribuído a instituições e pesquisadores do Brasil e de outros países. Além de dois catálogos, o CD traz os títulos e as capas dos folhetos em xilogravura. O material está dividido em autores, títulos e ciclos que acompanham a história da população (ciclo do boi, dos santos, dos conselhos, dos cangaceiros etc). Alcides Carvalho antecipa que existe a idéia de realizar um novo projeto junto à Biblioteca Central da UEL, para editar um próximo CD com todos os textos dos folhetos do acervo. ''Isso vai ser inédito no mundo'', diz o professor.


